quarta-feira, fevereiro 27

Anita manda uma linha na Linha de Sintra


Faço todos os dias, pelo menos, duas viagens de comboio. Linha de Sintra. Uma maravilha maravilhosa: comboios topo-de-gama com um décor extravagante, sobretudo no que toca ao ar rafado dos bancos. É como existirem os jeans com lavagens ou, se preferirem, bleached jeans. Uma questão de estilo portanto. A considerar também no ambiente e na aparência destes meios de transporte (que, note-se, nada têm a ver com a Linha de Cascais ou a Linha da Azambuja for example) é toda uma stree-art, toda uma graffitagem e auto-colantagem que, por assim dizer, enfeita carruagem atras de carruagem - o que nos permite não só afirmarmos que viajamos diaramente num comboio indie mas que também nos garante toda uma paisagem diferente ao longo da viagem.
Eu sempre achei que as viagens de comboio eram muito cinematográficas. Chego ao fim de um dia de trabalho, refastelo o traseiro no banco, encosto a cabeça no vidro e fico melacólica a ver o espaço a passar por mim. Claro que uma Amadora ou uma Santa Cruz Damaia não são propriamente alegrias prás minhas vistas. Mas uma Amadora ou uma Santa Cruz Damaia com uma película de grafitti manhoso entre nós muito menos alegria pras minhas vistas são.

Estou muito farta de, distraídamente, deixar pousar a cabeça no vidro, lançar um suspiro ao mesmo tempo e preparar a minha entrega àquele momento de observação da paisagem para logo no segundo seguinte constatar que um SLB Forever ou um Cacém City ou um qualquer cross piroso me impeçam de um momento que se podia antever tranquilo e profícuo ao meu descanso.

É geralmente nestas alturas que eu, pacientemente, desloco o meu olhar do exterior para o interior. Mas acabo sempre por me enervar porque é muita falta de educação, muito terceiro mundismo, muita falta de higiene e sentido estético - ai de quem me falar que é falta de dinheiro - entre outras coisas que eu nem consigo nomenclar.

Então, fecho os olhos, tento encontrar uma posição mais confortável. Volto mais uma vez a encostar a cabeça no vidro. E eis que constato o maior horror de todos: os telemóveis. Aliás: os telemóveis que reproduzem musiquinhas em versão monofonica, polifonica ou real através de mesquinhas colunas implantadas naqueles aparelhos defectos que me tiram do sério.

Mais - não falo aqui de qualquer melodia. Trata-se de kizomba, kuduro, funana, zouk, rap, hip-hop, afro-pop e outras coisas mais a pender para o samba ou músicas que eu não sei classificar mas que no meu imaginário são criadas e tocadas lá longe, numa fazenda brasileira, à sombra de uma árvore, com um chapéu de palha e um cavaquinho. E tudo isto junto, a emanar de telemóveis que tocam à desgarrada numa sinfonia idiota, acompanhados com movimentos, danças e cantares igualmente idiotas desta gente que se está completamente a cagar para normas sociais ou (já nem quero falar de regras ou do que é socialmente aceite) mas como eu ia a dizer, gente que está-se a cagar no respeito que se deve ao espaço do Outro. E ali estão, com os seus telemóveis diabólicos, a esgotar a paciência e o pouco bom senso que resta no final de um dia, a repetir as cantilenas à exaustão, a abanar a anca no assento (rafando ainda mais o pobre tecido desbotado), a passarem os ficheiros mp3 de um aparelho para o outro enquanto eu assisto à contaminação desta febre música-no-telemóvel com um ar de suplicío.
Tento valer-me da expressão facial para demonstrar toda a minha dor e cansaço mas recebo um riso de escárnio de toda a comunidade angolana, moçambicana, cabo-verdense, guineense, brasileira etc. que me tratam como um alien e eu sei que eles desejam, no fundo, que eu me lembre da célebre "se não os consegues vencer junta-te a eles". Mas eu não tenho um telemóvel que mande aquele som. Também não oiço aquele som. E só abano a anca daquele modo em contexto privado.

Fico, portanto, fodida com esta merda. Vêem-me impôr uma bosta de lei que visa a saúde pública e o bem-estar do próximo e eu tenho de levar com a piçada do kuduro e os seus promotores? For God's Sake!

7 comentários:

misskitsch disse...

Também gosto muito quando é alguma coisa como "Toros loves Pikinita", ou algo assim... ;)

Telak disse...

é... ja tive episódios desses! é terrivel
antigamente andava-se com a estereofonia gigante ao ombro, hoje é o telemovel ao pescoço!(nada contra quem use telemovel ao pescoço, desde que não saia de la nenhum som, que não o toque de chamada ou sms ou outro que tal)!!

uma vez senti-me tentado a "abafar" o som de 3 sujeitos suspeitos, com uma das musicas que ouço(auscultadores)..mas dado que eles eram,repito, suspeitos e 3.. eu apenas um...concentrei-me muito no livro que levava e com toda a valenteza e dignidade...desprezei-os!


=)=)

**

>> nim disse...

lady... compra um leitor de mp3 e uns headphones daqueles king size que não deixam entrar qualquer tipo de ruido.

é uma boa forma de aligeirar esse teu fim de dia alucinante.

beijos!

Celeste disse...

E quem fala assim não é gago! :D

Lembra-te que não atrda estás na tua casinha, bem no centro da cidade, e já não tens que levar com o comboio suburbano.

Beiji**

Ruca! disse...

porra é verdade, grande praga que ainda anda.
eu agora tenho uma vizinha que sai e entra em casa sempre com o telemóvel a debitar uns kuduros e outros eteceteras de baixo nível e confesso que é exasperante.
cresçam gente parva!

bjito*

rititas disse...

pegando no que o >>nim disse, eu aconselhava-te a não comprar um mp3com headphones king size que isolam o som todo, simplesmente pelo facto de correres o risco de ficares sem eles!!

praga disse...

como te compreendo