(banho com àgua a meio-gás, tropeções, chuva pelo caminho até ao trabalho)
Dossiers, papeladas, stress, sandes, telemóvel, chamadas não atendidas, gente que não aparece a horas, o carimbo que resolve partir-se em dois, a impressora sem tinteiros, um pequeno momento para sorrisinhos e dizer que está tudo sob controlo ao big boss, uma ida ao wc para suster uma lagrimita e inspira-expira, a sensação de que se está prestes a falhar por alguma coisa esquecida e que vai ser o erro do século.
(oh meu deus está na hora, mp3 sem bateria, caminho para casa em silêncio...? não. não vou a pé, deixa-me oferecer-te uma ida de autocarro cachopa, que estás cansada – e saco dos últimos trocos e dou ao condutor que à primeira vista é bem jeitoso, mas depois sorri mostrando com uma certa insanidade a imensa falta de um canino)
E entretanto outro banho, ainda mais a meio-gás, entro no vestido, ponho os brincos, cremes, baton, rímel, perfume, saltos altos e estou mais ou menos e saio de casa. Não tenho dinheiro nenhum, tenho de apanhar um táxi, tenho menos de 15 minutos para estar a tempo de salvar o meu dia e poder ao menos rir-me um bocadinho de mim com um bocadinho de vinho e com um bocadinho de sorte o meu dia vai valer a pena.
Saco do cartão com um sorriso de estrela na 1ª caixa Multibanco – “Cartão Multibanco não válido” que é como quem diz “Loooser! Vai masé pra casa, faz pipocas que ainda estás a tempo do Preço Certo em Euros”.
E eu rio-me, faz parte, relax, estás a ter um dia complicado é só isso. Não há nada como desprezar esta merda de caixa Multibanco que é certamente a incompetente do ramo. E arrasto-me até outra caixa, bem ao lado. Enfio o cartão, ouço uns barulhos esquisitos que me fazem lembrar o caralho do frigorífico, vá lá ainda hoje levantei dinheiro de manhã, tenho mais de mil euros na conta, estou podre de rica, plamordedeus, dá-me só 10 euritos é tudo o que é preciso e de novo - “Cartão Multibanco não válido”.
E acredito com firmeza que é uma questão de gases daquela zona, radiações, ondas magnéticas, fantasmas, tudo junto a dar cabo do sistema.
Aflita e já completamente atrasada, torço um pé e vejo a menina dos meus olhos, a caixa que vai ser a minha salvação e que me vai mimar com uma nota, que me vai permitir aceder à minha fortuna pessoal. Meto o cartão e juro que fecho os olhos por 2 segundos, para não chorar e para dar sorte à máquina com as minhas boas vibrações (?) e novamente o ecrã avermelhado “Cartão Multibanco não válido”.
Arrasto-me para casa incrédula e o telefone toca e não há hipótese de me virem buscar e eu estou com muitas dúvidas se quero ir porque de certeza que era capaz de morrer a descer as escadas.
O único consolo é ter a certeza que amanhã vou aliviar um pouco esta dor. E ah meus amigos, o cliente tem sempre razão e eu tenho tanta coisa a deitar cá pra fora. Nada como ir pedir por contas a um balcão de atendimento ao cliente. Vai ser um chinfrim.