quarta-feira, maio 21

Eu tinha de deixar isto por escrito.

Já se passaram dois anos, mas eu não consigo esquecer. Já não existe vida universitária. E esta é A Verdade da minha vida. Não tenho o prazer de faltar às aulas, não passo longas horas na esplanada, não estrago a vida a nenhum professor com o meu mau comportamento, não saio à noite dia sim dia sim, não me meto em novelas mexicanas, não lanço tantos boatos como gostaria, não suplico por mais um dia para entregar um trabalho e por aí vai. A única diferença vantajosa é que não tiro fotocópias com o sentimento de culpa de quem está a foder o dinheiro aos papás.

Como não existe vida universitária, o próximo Euro não será numa praia fluvial a comer caracóis, a beber minis e a infestar o ar com o cheiro a côco do protector solar. E não haverá a sensação reconfortante de estar entre uma cambada de iguais que não se importam de partir daí para outras bandas apesar do cu molhado e do cabelo empastado e da a pele a pedir um banho e só um bocadinho de hidratante. E também já não há a ida às cantinas, as corridas lançadas depois do repto gritado - "o último a chegar tem sida!" e de repente há alguem que se espatifa ao comprido e comida por todo o lado, pratos partidos, salva de palmas. E já não há batatada e peixaria da grossa, discusões irreais que acabam com um irreal "eu comi arroz com feijão num restaurante em Nova Iorque com o antigo presidente do Brasil, portanto não me venhas com essa merda de que arroz com feijão é comida de porco!" e uma pequena multidão ri com a estupidez e a vida é mesmo a puta da loucura, bora lá beber mais uma.

E já não há as delícias de falar mal (mas mesmo muito mal, "aquela ressabiada, a que cheira mal da boca") das colegas de curso, dos betos, dos malcheirosos, das tunas, dos que dão pancadinhas nas costas mas são os maiores cabrões, dos burros, dos snobes e de toda e qualquer besta no geral. E também não há casas impossíveis, dias sem horas, wc's de pantanas, roupa pelo chão e "quem é que está cá a dormir?" e "quem é que comeu o resto das febras de ontem, tenho de tomar o pequeno almoço!".

E não há paixonetas renovadas todas as semanas, o não-sei-quem-que-andou-com-aquela, o erasmos espanhol e italiano, os cornos que se metem e que se levam, a rapidez com que se parte para outra, o namoro que se tenta levar a sério, o choro compulsivo de quem está prestes a morrer mas que passa logo no dia seguinte. Porque afinal, os melhores amigos do mundo estavam ali com o colo disponível a toda a hora e cervejas no frigorífico e à noitinha havia uma coisa ainda melhor que o rapazote que nos deu com os pés - a sessão de televendas com produtos e aparelhos delirantes que nos devolvem outra vez o sentido da vida.

E é o risco fatal ao mais pequeno deslize, erro de cálculo ou opção duvidosa.
E é uma maravilha e uma merda que tenha sido assim e que não volte a acontecer.

4 comentários:

Telak disse...

those were the days!

sem dúvida... a saudade as vezes apela.

para mim já passaram 3 anos!

e parece-me uma outra vida, exactamente como tu escreveste.

:)

cacau disse...

oh... como te compreendo! kiss

misskitsch disse...

Estou a passar por isso.
Fica um vazio cá dentro... Jebus!

Ruca! disse...

boa vida para sempre é que era...