sexta-feira, setembro 5

nada como uma boa fase 4

Hoje a caminho do trabalho, dei por mim a pensar que o que calhava mesmo bem este fim-de-semana era conhecer um homem com pronúncia portuense, bastante rico, que me levasse a passear lá prás suas bandas e me deixasse à porta de casa no Domingo à noite. Aliás, que me deixasse à porta de casa no Domingo à noite e que se despedisse de mim com um beijinho repenicado na testa depois de ter arfado até ao 2º andar com roupa, acessórios, livros e consumíveis vários em sacos pendurados nos seus braços fortes.
Logo depois fiquei envergonhada com o meu pensamento cruel. Como é que é possível ter uma visão tão utilitária dos homens? Passado o fugaz instante de culpabilização, resolvi fazer um flash-back para tentar encontrar o início da minha maldade.

Pois bem, tudo começou em 1998, quando entrei para o 9º C e vejo o T. a entrar para a aula de apresentação, com 15 minutos de atraso e uns All-Star esfrangalhados.

O T. era um repetente popular da malta dos rebeldes, jogava Basketball, tocava saxofone e era louco pelos Queen. Passada a loucura das primeiras semanas de aulas, comecei a assentar arraiais e vi logo que aquele ano ia dar merda. Activei o meu sistema defensivo e resolvi negar o que estava a acontecer. Não podia estar apaixonada por aquele rapaz, ainda por cima daquela maneira tão patética, ainda por cima quando tinha 80% da comunidade feminina + 2 grandes amigas rivais a suspirarem para cima de mim, convictas de que eu era “território neutro”.

Eu e o T. começamos a falar de música e da vida em geral e assim passávamos quase todos os intervalos. À medida que fomos estreitando laços passámos a estar em par também às horas de almoço e fins de tarde entretidos com grandes questões – Humanidades ou Científico-natural? Será que a Courtney obrigou o Kurt a matar-se? E se fizéssemos uma ameaça de bomba?

Com o lado feminino estava tudo controlado. Ninguém planeava o meu enforcamento em praça pública porque me tomavam por boa samaritana.

Até que aconteceram duas fatalidades que erradicaram o meu estatuto de fiel-amiga-casamenteira e me concederam o de puta-dissimulada: primeiro o T. arranjou maneira de se sentar ao meu lado nas aulas de matemática, português, inglês e físico-química. Depois eu tive a brilhante saída de lhe pedir para me ensinar a jogar Basket.

A partir daí o meu mundo descambou, fui acusada de ser uma grande cabra e excluíram-me para todo o sempre de dois grupos: o das meninas populares e o das boas alunas.
Num desses dias negros, estava eu no WC munida com o X-Acto pronta para me suicidar, quando descobri uma tipa que era apanhadinha pelo Jim Morrison e retocava as suas olheiras com um eyeliner. A vida passou a valer a pena mais uma vez. (sem bons amigos é que não foda-se)

Eu e o T. fomos enchendo vários cadernos A4 nas aulas, com perguntas, citações, desenhos, recadinhos e piadolas. Até que chega a hora de almoço mais importante da minha vida de mulher, et voilá, levo com o meu primeiro beijo na boca e com língua, a sério (ou seja - in love) que até fico a ver estrelas. Foi num banco em pleno bar onde já andávamos à que tempos a ronronar mas mesmo assim eu não fazia a mínima ideia que ia ser naquele dia, àquela hora e naquele lugar.

Recapitulando a história do meu primeiro amor, consigo entender com exactidão 5 fases que passo quando estou tragicamente apaixonada:

Fase 1 - “negação”
Fase 2 - “deixa-andar”
Fase 3 - “entusiasmo fervoroso”
Fase 4 - “consumação”
Fase 5 -“repelir e/ou matar o pobre aranhiço qual viúva negra”
(quando milagrosamente superadas as fases anteriores) Fase 6 – “BINGO!”

Espero não estar a chocar nenhuma leitora de 14 anos, mas é mesmo verdade – há 10 anos atrás curtir com alguém era só beijar, apalpar e ser apalpada.

Durante uns dias continuei em alegre reboliço com o T., muito embora já andasse a antecipar a fase 5. Sortuda como sou, logo me aparece a oportunidade de ouro.

E a partir de agora só lê quem tem estômago para estas coisas ok?

Por esses dias o Prof. de Português ordenou que cada aluno apresentasse um trabalho sobre Os Lusíadas. Essas apresentações iam acontecer ao longo de uma semana e eu era antes do T. Brilharam-se-me os olhos que semi-cerrei para aguçar a visão mental do plano que nascia ali.

Na semana seguinte não faço mais nada - roubo o trabalho ao T. um dia antes da minha apresentação, tiro uma cópia do trabalho e dos acetatos e volto a colocar o trabalho na sua mochila empoeirada. No dia seguinte apresento descaradamente o trabalho para toda uma turma e não tenho qualquer pudor em olhá-lo nos olhos enquanto esmiúço o acetato projectado na parede, com o rosto maleficamente colocado em contra-luz (“Tu, só tu puro amor com força crua, bla bla bla”)

(Eu tive uma infância fodida, foi o que foi.)

Quando a aula acabou, acabou também a nossa relação e passámos meses e meses sem trocar uma palavra.

Agora sim, o mítico final feliz:

Depois de penar e amadurecer um bocadinho, lá consegui estrear-me na fase 6, quando conheci na faculdade um idiota que também aplicava e dominava a fase 5. Uma besta como eu.
Desde então decidi domar os meus impulsos da fase 5, já que passar para a fase 6 permite não só o usufruto das diversas benesses sexuais da bigamia, mas também o cultivo do nosso lado mais bondoso.

Só que, ainda fraquejo. Como hoje de manhã.

9 comentários:

medusasss disse...

Fantástico!

Realmente às vzs dá jeito desligar o botão da autodestruição, para que os pobres coitados possam carregar os teus sacos mais vezes!

Anónimo disse...

Olha, digo-te já que foi uma grande bofetada de luva branca, essa cena do trabalho e do acetato. Sim senhor! Mas essa tua amiga que não se incomode, como a dos croquetes, pois pior mesmo seria aparecer-lhe um cancro.

PS: Os teus posts fazem os meus dias, mas admito que alguns dos comentários da clientela fazem as noites.

ASS. Presidente do Brasil

Rita Maria disse...

Eu, aos cinco anos, deixei o meu namorado porque a mãe dele veio buscá-lo ao jardim infantil depois de comprar um alguidade de plástico (isto é, com o mesmo debaixo do braço). Sem contemplações.

Emma Bovary disse...

Xiii tu fazias isto à miudagem e dizes que tiveste um infância fodida?? Havia de te contar a história da viúva negra repelida... Várias vezes... E não por namorados... lol

Maria Nunes disse...

Vim cá parar já nem sei muito bem como (não, não foi nenhuma das que fazem parte do rol das expressões top-ten. Ainda não cheguei a esse estado!). Mas tenho a dizer: amei este blog... e olha que não sou muito dada a sentimentalismos blogosfera fora...

misskitsch disse...

Espero não estar a chocar nenhuma leitora de 14 anos, mas é mesmo verdade – há 10 anos atrás curtir com alguém era só beijar, apalpar e ser apalpada.

Também sou desse tempo, caras amigas, e afianço que era verdade. Eu seique deve ser dificil de acreditar, hoje, em que as miudas de 14 anos javardam selvaticamente nas crianaçs de sexo macsulino com a borbulha na cara.

A minha fase 5 é uma fase 2, portanto... Estou bem pior que tu. E controlei-me imenso. Ah, se controlei! E deu m*rda!

Assumir a minha fase Besta e vamos lá ver onde a vida me leva... ou onde é que me páram - parece-me ser mais este o caso!




p.s. A tua infância, para além de fodida, foi brilhante.

>> nim disse...

epa... ai de ti que voltes a abandonar este blogue. juro que te espanco.

que post tão catita pá. quase quase espectacular :P

Celeste disse...

Conat lá da tua infância, vá... :)

Anónimo disse...

Fui a única pessoa que ficou chocada? Ou fui a única que leu o texto?