sexta-feira, setembro 26

big brother


Quando eu era pequena, o mundo é que era nice. Foi-se mantendo nice até à idade dos meus 10 anos, altura em que o meu irmão atingiu os 6 e de borboleta delicada e angelical, regrediu para um verme diabólico. Recordo com alguma amargura ainda, o momento da sua metamorfose. Foi um dia que até estava a ser agradável, um Sábado escolhido a dedo para me centrar sobretudo no meu habitat natural – sofá e TV.

Na tarde desse Sábado, estava sozinha em casa em total simbiose com o sofá mas entediada com o 2º dos 4 canais disponíveis. Logo senti uma urgentíssima necessidade do telecomando disponível à distância de 2 metros, ou talvez até fossem 2 metros e meio.

Ora eu, que sou mesmo boa pessoa, não ia incomodar-me nem alterar o grau de conforto em que me encontrava, até porque já na altura tinha de ter bastante cuidado com a minha baixa pressão arterial. Era bastante inteligente, por isso jamais arriscaria uma quebra de tensão.

(Hoje sou mais estúpida, principalmente porque sou alcoólica e insisto manter-me vertical quando tudo indicia o pior.)

Prontamente resolvi aplicar um método muito eficaz até então, lanço um grito desesperado e chamo o meu irmão vezes sem conta, como se estivesse a ser violada por um monstro verde e mal-cheiroso.

Eu, no rés-do-chão da nossa vivenda afortunada e algo pirosa (não fomos emigrantes na Suíça porque não calhou); ele, no sótão a brincar com legos. Portanto, ele tem de descer eu diria que, uns 32 degraus até ao 1º andar e outros 29 até ao rés-do-chão, mais uns 35 passos aflitivos (perna curta, coitado), até chegar até mim e perguntar (gago e belfo e estrábico)

– “O QUE É É É QUE SSSE PASSSA?”

(a minha consciência pede que eu esclareça que actualmente, a minha cabeça fica rés-vés sovaco da peste. E ele já não gagueja.)

(…e também não é sopinha de massa)

(ai deslarga-me consciência boazinha! Não! Não é estrábico!)

Eu, deitada no sofá mas não completamente de lado, simplesmente a 3/4 do leito, enquanto me delicio com o ar esbaforido e atormentado da criatura:

“Passa-me o telecomando”

“Onde é que ele está?”

“Ali, em cima do sofá. Estás cego ou quê??”

Ele estende-me servilmente o meu querido partner de ócio e sai da sala. Eu fico a pensar que a vida é fantástica e que cada um colhe aquilo que semeia. Eu colhia na altura, os frutos de uma boa educação incutida durante seis trabalhosos anos ao meu irmão. Muita disciplina e assertividade…por isso merecia tudo isso e muito mais. Estava nesta masturbação mental quando sou interrompida por um surpreendente:

“Óhh Mana!”

E eu olho repentinamente para a porta de entrada da sala, vejo algo a voar na minha direcção, mas no nano-segundo seguinte já não sei onde pára a Lady-Yes-I-Wan’t-It encontrando-me a chorar pela mãezinha com as duas mãos agarradas ao olho, enquanto largo litros de ranho. O meu irmão desaparece do local de combate enquanto a lata de Raid Casa e Plantas rebola pelo chão depois de ter esfolado a minha pobre sobrancelha de criança.

Estão a ver como tive uma infância fodida? Tenho as minhas razões para ser assim.

5 comentários:

Maria Nunes disse...

Infância fodida para bem das minhas gargalhadas! :)

Dúvida: A história acabou por aí? O miúdo não sofreu nenhum ensinamento? Strange... very strange...

medusasss disse...

Pobre Lady, tanta coisa que lhe podiam atirar e foi o precoce e fraterno irmão (cada um tem o que merece) atirar com uma lata de raid para as melgas! Pobrezita... tens a minha empatia, que aos 7 anos a minha irmã mais nova já era mais alta que eu...

Ruca! disse...

bela história do baú.

tb tenho uma mana + nova e qd éramos putos ela usava de uma arma infame q eh a calúnia. coisa terrivel, hein?

'oh mãe, o ruca chamou-me elefante.' lá vinha a mamã de chinelo em riste pronta a defender a singela menina dela do suposto filho varão arruaceiro e malcriado.

sofri a minha quota parte. partilho da tua dor, de sobrancelha. :)

Paula disse...

A culpa foi toda do Raid Casa e Plantas!
Se fosse uma lata de Mafu, mata moscas, melgas e mosquitos, tinha acertado ao lado!
:)
Bjs!

Piston disse...

De fosse comigo era de machado para cima.