sexta-feira, fevereiro 29

apagão


Quantas vezes já nos lamentamos que o mundo está virado do avesso, que tudo está mal, que pagamos muitos impostos, que a vida está pela hora da morte, que a conta de electricidade cai certinha todos os meses para nos atrapalhar o orçamento, que anda tudo muito cagado e poluído, que a que os manda-chuvas usam e abusam de poderes e monopólios mas que não há nada a fazer a vida é mesmo assim e o que é que um gajo pode fazer? Atire a primeira pedra que já não se sentiu profundamente incapaz de fazer qualquer coisa, provocar a minima mudança, reverter o estado das coisas, etc. etc. ? Então vá lá – isto é mesmo o mínimo dos mínimos, nem que seja para aliviar a consciência: activem o vosso lado Mafadlesco e APAGUEM A LUZ hoje! Das 19h55 às 20h00. Se estes motivos não forem válidos aqui fica mais um: sabem aquele mito urbano que diz que se todos os chinocas batessem o pé ao mesmo tempo haveria um tremor de terra? Então o que aconteceria se todos os que sabem disto desligassem a electricidade? Eu acho uma boa ideia. Só lançava o apelo de outra maneira – tudo a jogar ao quarto escuro!

quarta-feira, fevereiro 27

Anita manda uma linha na Linha de Sintra


Faço todos os dias, pelo menos, duas viagens de comboio. Linha de Sintra. Uma maravilha maravilhosa: comboios topo-de-gama com um décor extravagante, sobretudo no que toca ao ar rafado dos bancos. É como existirem os jeans com lavagens ou, se preferirem, bleached jeans. Uma questão de estilo portanto. A considerar também no ambiente e na aparência destes meios de transporte (que, note-se, nada têm a ver com a Linha de Cascais ou a Linha da Azambuja for example) é toda uma stree-art, toda uma graffitagem e auto-colantagem que, por assim dizer, enfeita carruagem atras de carruagem - o que nos permite não só afirmarmos que viajamos diaramente num comboio indie mas que também nos garante toda uma paisagem diferente ao longo da viagem.
Eu sempre achei que as viagens de comboio eram muito cinematográficas. Chego ao fim de um dia de trabalho, refastelo o traseiro no banco, encosto a cabeça no vidro e fico melacólica a ver o espaço a passar por mim. Claro que uma Amadora ou uma Santa Cruz Damaia não são propriamente alegrias prás minhas vistas. Mas uma Amadora ou uma Santa Cruz Damaia com uma película de grafitti manhoso entre nós muito menos alegria pras minhas vistas são.

Estou muito farta de, distraídamente, deixar pousar a cabeça no vidro, lançar um suspiro ao mesmo tempo e preparar a minha entrega àquele momento de observação da paisagem para logo no segundo seguinte constatar que um SLB Forever ou um Cacém City ou um qualquer cross piroso me impeçam de um momento que se podia antever tranquilo e profícuo ao meu descanso.

É geralmente nestas alturas que eu, pacientemente, desloco o meu olhar do exterior para o interior. Mas acabo sempre por me enervar porque é muita falta de educação, muito terceiro mundismo, muita falta de higiene e sentido estético - ai de quem me falar que é falta de dinheiro - entre outras coisas que eu nem consigo nomenclar.

Então, fecho os olhos, tento encontrar uma posição mais confortável. Volto mais uma vez a encostar a cabeça no vidro. E eis que constato o maior horror de todos: os telemóveis. Aliás: os telemóveis que reproduzem musiquinhas em versão monofonica, polifonica ou real através de mesquinhas colunas implantadas naqueles aparelhos defectos que me tiram do sério.

Mais - não falo aqui de qualquer melodia. Trata-se de kizomba, kuduro, funana, zouk, rap, hip-hop, afro-pop e outras coisas mais a pender para o samba ou músicas que eu não sei classificar mas que no meu imaginário são criadas e tocadas lá longe, numa fazenda brasileira, à sombra de uma árvore, com um chapéu de palha e um cavaquinho. E tudo isto junto, a emanar de telemóveis que tocam à desgarrada numa sinfonia idiota, acompanhados com movimentos, danças e cantares igualmente idiotas desta gente que se está completamente a cagar para normas sociais ou (já nem quero falar de regras ou do que é socialmente aceite) mas como eu ia a dizer, gente que está-se a cagar no respeito que se deve ao espaço do Outro. E ali estão, com os seus telemóveis diabólicos, a esgotar a paciência e o pouco bom senso que resta no final de um dia, a repetir as cantilenas à exaustão, a abanar a anca no assento (rafando ainda mais o pobre tecido desbotado), a passarem os ficheiros mp3 de um aparelho para o outro enquanto eu assisto à contaminação desta febre música-no-telemóvel com um ar de suplicío.
Tento valer-me da expressão facial para demonstrar toda a minha dor e cansaço mas recebo um riso de escárnio de toda a comunidade angolana, moçambicana, cabo-verdense, guineense, brasileira etc. que me tratam como um alien e eu sei que eles desejam, no fundo, que eu me lembre da célebre "se não os consegues vencer junta-te a eles". Mas eu não tenho um telemóvel que mande aquele som. Também não oiço aquele som. E só abano a anca daquele modo em contexto privado.

Fico, portanto, fodida com esta merda. Vêem-me impôr uma bosta de lei que visa a saúde pública e o bem-estar do próximo e eu tenho de levar com a piçada do kuduro e os seus promotores? For God's Sake!

Treééééeeeees miiiiiiiiiiiiiiiiiiiil acessos.

quarta-feira, fevereiro 20

Azuis de Inverno


Descobri há uns dias que existem os “Winter Blues”. Para mais informações usar o google sff.

Eu acho que padeço de Azuis de Inverno (como eu adoro traduções literais). Acontece-me ficar com a pele macilenta, rabujenta, mal disposta e azeda como uma laranjinha verde mesmo quando tudo corre pelo melhor.

Estou a viver uma fase-maravilha - eu nasci realmente com o cuzinho apontado para a lua. Encontrei a casa dos meus sonhos actuais, ou seja, uma casa maneirinha e barata sem ser demodé. Funcional mas acolhedora, antiga mas moderna, sem muitas paneleirces, clean mas traça antiga, mesmo no centro centrinho de Lisboa e, mais uma vez, barata!
Os meus pais-fiadores são mesmo meus amigos do peito e afinal não gostam só do meu irmão (ideia que me atormenta o espírito desde que ele nasceu e só agora começo a ultrapassar o trauma). E pronto, há uma série de pormenores com papeladas e bancos e selos e impostos e mobílias e mudanças e etc etc que estão a correr without problems.
Mas – lá está – os meus Azuis de Inverno não me deixam em paz. Não durmo tão bem como no Verão, não ando tão satisfeita com a vida nem tão predisposta a cowboiadas de fim-de-semana, não há cerveja que me alegre nem música que me ponha a bater o pezinho. Tenho muitas saudades do Verão. O sol, a luz, o calor, as sandálias, os vestidos e as saias, as t-shirts, as malas mais leves, os dias mais compridos, as esplanadas, as festas ao ar livre, os concertos, as férias, o rio e o mar, as caminhadas, a sede e a água fresca (e ficamos por aqui - quando me aventuro a escrever nestes âmbitos afloresce-me uma veia de literatura light).
Estou aflitinha, à rasquinha!, para que chegue o Verão. Ou pelo menos a Primavera (se isso ainda existir).

Daqui por um mês e pouco estou a mudar de casa e uma coisa que gostava muito muito de fazer, assim que estivesse instalada, era ir à janela gritar “Aqui vou ser feliz” com um sol delicioso a invadir-me a casa, e logo de seguida, abrir o Windows media player (colunas em alto som) a reproduzir esta faixa e depois esta.

terça-feira, fevereiro 5

37, 2 de febre (eu tentei aquecer o mais que pude)

Não quero nada nada nada nada nada, nadinha, nada, mesmo nada, nada! ...ir trabalhar amanhã. Nada. Mesmo mesmo nada. Que merda tão grande.