segunda-feira, março 31

Lar doce Lar

Faz-me bem à pele expurgar mau-karmas que dão cabo dos fusiveis, que é como quem diz, dão cabo dos chakras.
Em conversa com um amigo (um dos que metería no tal taxi) surge a pergunta "Admira-me que ainda não tenhas feito um post sobre isso". Eu apressei-me a dar uma resposta que parecesse lógica mas não sei se é a mais certa. Disse-lhe que não queria pensar no assunto e pode ser mesmo isso, ou cansaço, ou falta de paciência ou tudo junto. Ando muito cansada de facto. Porque além das horas de trabalho, mais-do-que a full-time, surgiu-me este part-time. Sim, o processo de compra de casa é um verdadeiro part-time. Ele é papeladas, contactos com a imobiliária, o empréstimo, esclarecimento de dúvidas junto das Finanças, do Notário, do Banco, com os ainda-proprietários, com os meus pais-fiadores (Paitrocinios).
O melhor é contar a história:

Um belo dia no ano passado, estava eu fartinha de ser gaja de subúrbio e fartinha de partilhar o tecto com outros humanos bizarros, inconsequentes e macumbeiros, pensei "Lady, não é tarde nem é cedo. É hora de colocares um valente ponto final nesta situação". Dirigi-me ao membro superior do meu clã – o meu pai – e disse "Pai, estou farta de viver ali. Bem sei que estou a poupar uns trocos mas se isto continuar vou gastar esses mesmos trocos e muito mais em sessões psicoterapeuticas e ansioliticos. Vou alugar um espaço. Tenho dinheiro, sustendo-me, pago as minhas contas e tal e despeço-me da Linha de Sintra antes que a Linha de Sintra te faça despedires-te de mim". E o meu pai, amigo da sua filha, perante a tragicidade do momento apressou-se a dizer no calor da sua emoção com uma voz de Deus "Não filha. (colocou-me a mão sobre o ombro) Enquanto cá estarei é para te amparar no que puder. Vou-te ajudar a comprar uma casa." Os meus olhos ficaram marejados. A minha mãe lançou um olhar de ternura sobre o acontecimento que testemunhava e continuamos o almoço em tranquilidade (frango assado com arroz de legumes).

A partir daí lancei-me à procura de casa. Horas em frente ao pc, inscrevi-me em 500 sites de imobiliárias, marquei visitas, comparei preços, fui descobrindo o que é o best-of numa casa e o que são os pontos negros numa casa, visitei quase 20 até que, num belo Sábado descobri A casa. Ao longo deste processo, foram muitas as frases-clichés/citações/slogans relativos a apartamentos e feng-shui. Há uma frase em particular que me marcou e que confirmo por experiência "Não somos nós que escolhemos a casa. É a casa que nos escolhe a nós". Ohhhh que lindo! Adiante.

A decisão final deu-se já em 2008. Durante umas semanas regateei o preço. Não pensem que isto é simples como:

- 100 mil euros
- desculpe, mas o valor de venda eram 130 mil! Estando a fazer 110 mil já é um bom negócio!
- 105 mil é de facto a minha última oferta.
- Ok, 105 mil e não se fala mais nisso. Mas assim não posso deixar nenhum electrodoméstico.
- Nem o Frigorifico?
- Nem o Frigorifico.
- Ok, por mim negócio fechado.
- Negócio Fechado, foi um prazer.
(aperto de mãos)

Quem pensa que isto é negociar está muito enganado. De cada vez que proponho um valor tenho de me dirigir à imoboliária. Eles redigem uma formalização da proposta, eu assino muitos papéis, damos um passoubem. Eles marcam uma reunião com os proprietários onde é apresenta a proposta. Os proprietários torcem o nariz e apresentam uma contra-proposta e dão um passoubem. Esta contra-proposta é formalizada, eles assinam muitos papeis, marcam uma reunião comigo, onde me é apresentada a proposta, eu faço uma cara feia e faço uma nova proposta que por sua vez é formalizada, eu assino muitos papeis and so on and so on até ao passoubem final.

Depois de semanas/meses nisto chegamos a um acordo. Segue-se o contrato de promessa de compra e venda. Explicaram-me assim (os gajos da imobiliaria) – "É muito simples, é assinado um contrato que garante que vai comprar o imovel pelo preço X e que vai adiantar já o montante Y. No fundo, uma breve reunião com os proprietarios onde entregará um cheque-sinal que em caso nenhum será devolvido.

Muito bem. Não houve problema, não tive de formalizar o pedido de sinal junto do meu paitrociono. Bastou-me fazer o olhar do Gato das Botas no Shreck. Chegado o dia da dita assinatura da Promessa de compra e venda, encaminhámo-nos para uma sala de reuniões vistosa e tão empresarial, como eu só conheci em filmes (alcatifa bem cuidada, enorme mesa longa, garrafinhas de agua nos respectivos lugares, pastinhas com documentação para cada um) e eis que me deparo (e me englobo) no séquito da Rainha da imobiliária armada em Rainha da cocada preta. Era: eu, o casal proprietario, um agente imobiliario a representar-me e a expor as minhas questões, um agente imobiliário a representá-los e a expor as suas questões, um advogado ou solicitador (não sei bem o que eram) para mim e para eles, a Rainha da cocada preta e um advogado isento apenas para presenciar o acto, não vá aquilo ser tudo mentira. Podia colocar-se a questão de estarem umas 10 pessoas a sonhar todas ao mesmo tempo, a mesmissima coisa e era o dito-por-não dito. Aprendi que, nestas coisas é estritamente necessário que alguem comprove a veracidade dos actos. O custo do comprovativo da realidade paga-se bem (cerca de 80 euros pelo SCR - Serviço de Comprovar a Realidade, serviço prestado através da presença do Advogado comprovador na dita realidade + 20 ou 30 euros para a descolação até ao real). Isto é tão estranho, metafisico, impalpável e vago como ler uma dissertação niilista.

Bem, foi um acto super solene - a Rainha da Cocada Preta leu tudo muito bem lido (tal como ouvimos nos anuncios à mebocaina "Em caso de dúvidas ou persistência dos sintomas contacte o seu médico ou farmacêutico") Saliento aqui uma pequena fracção do que foi dito:

"Esteja ciente de que o valor-sinal aqui acordado hoje, não é em circunstância alguma devolvido. Por exemplo, sei que vai recorrer ao crédito habitação. Ora, como sabe, o crédito à habitação pode não ser aprovado por inumeras razões, e posso ler algumas alineas (leu uma serie de coisas que nao interessam e/ou nao ouvi até que me supreendo com) "portadores do virus da SIDA ou de outra doença de encurte gravemente o tempo de vida do cliente não serão beneficiados pelo crédito à habitação". Enquanto a idiota lê isto, olha-me por cima dos óculos. E sai-me logo o seguinte "Parece-me que, de momento, apenas tenha uma pequena constipação". Na altura também estava com prisão de ventre, tenho pena de não ter referido.

Vamos apenas no Contrato de promessa e compra e venda. Agora vamos passar ao empréstimo. Fui ao banco munida do meu Paitrocinio. Fizeram-me muitas perguntas, preenchi muita papelada, dei os mais variados dados inclusivé:

- altura
- peso
- historial de doenças e data das ultimas análises

Depois de algumas semanas a analisar o meu Indice de Massa Corporal e o do meu fiador chegaram à conclusão que sim (suponho que não tenha de engordar ou emagrecer) e que estavam reunidas as condições de me começarem a roubar à grande e mesmo assim, conseguirem a proeza de me colocar numa total posição de submissão às suas ordens e mercês e por pouco não assino papéis do género "declaro para os devidos efeitos o quão agradecida estou à instituição bancária em epigrafe. Mais declaro que autorizo todo e qualquer roubo e se for preciso coloco-me à disposição para limpar o cuzinho de alguém". Dada a aprovação, foi hora de me colocar à espreita de todos os movimentos bancários. O 1º foi "52.38 eur Abertura de Dossier".

Como alguns de vós sabeis, trabalho de cu sentado num escritório (às vezes levanto-me até ao fax ou à fotocopiadora mas é raro). De qualquer forma, abrir dossiers é pratica corrente. Apresento aqui o meu pior orçamento de cada vez que procedo à abertura de um dossier:

Dossier – 5 euros
Conjunto de 12 separadores – 2.50 eur
Micas Várias – 2,35 euros
Taxa por levantar o cu da cadeira – 2 euros

Ora 11,85eur, arredondados 12 euros. Acontece que a taxa por levantar o cu da cadeira com os funcionários do banco paga-se bem. Primeiro porque o cu em si é totalmente diferente, o meu é certamente mais leve e ágil no levantar. E depois no meu escritório, quando se abre um dossier, regra geral, somente um cu se levanta. Acontece que no banco é preciso no minimo um outro cu para presenciar o real, ou seja, provavelmente haverá um cu-testemunha que se levanta para comprovar a efectivação real da abertura do dossier. Ou isto ou os dossiers estão pela hora da morte e eu não me dei conta.

Meus amigos (os que tiveram paciência de ler até aqui) faço agora uma interrupção porque temo pela vossa paciência ou falta dela. Hei-de fazer uma part II desta conversa.

terça-feira, março 25

urgente

Às vezes tenho acessos de lucidez. Começo a pensar com fervor por assim dizer. Vêm-me à cabeça informações tão verdadeiras quão assustadoras, do género – eu posso morrer agora mesmo. Daqui a nada levanto o cu da cadeira para ir tomar um café e quem me garante que não me passa um caterpillar por cima e me faz num 8, esborrachada no asfalto sem mais um suspiro para dar ao mundo. Fico com uma consciência da morte de morte. E penso assim durante uns momentos, aflita, sem saber como controlar essa inquietação. Eis que começam a nascer todas as vontadinhas e/ou desejos e/ou fantasias e/ou sonhos de consumo que queria ver concretizados no imediato. Não são vontadinhas, desejos, fantasias ou sonhos de consumo improvaveis ou de dificil realização. Mas são vontadinhas, desejos, fantasias ou sonhos de consumo que eu simplesmente não tenho coragem de realizar tendo por base a sensação de que a minha vida se vai prolongar a médio prazo pelo menos. Nestas coisas, nada como dar um bom exemplo. Uma das coisas que me ocorre sempre nestas alturas (relembro: em que me assalta a ideia de que posso morrer já da parte da tarde) é a seguinte – eu gostava muito, mas MUITO de me levantar da cadeira a meio de uma reunião com chefes e sub-chefes e quase-chefes e respectivos colegas, colocar um ar solene qual Simone de Oliveira numa cerimónia de homenagem e declarar "Minha gente: no fundo, no fundo eu amo-vos a todos. Digo isto de coração aberto. Mas nunca mais me vão por a vista em cima e por isso aqui deixo o meu mais sincero ritual de despedida". No momento seguinte, saltaria para cima da mesa e transformava-me num genuino elemento de um rancho folclórico a dançar e a cantar "Adeus Ò Serra" e dava um beijinho na testa de cada um. Degustava enquanto podia e fosse seguro, a reacção do estimado público e partia para outra.
Pedia um credito por sms à Cofidis. Marcava uma sessão de 1h30 de massagem a 4 mãos. Apanhava um taxi e reunia a melhor selecção de amigos (sim, cabem num taxi) para lhes lembrar que os adoro e que a vida sem estas loucuras não presta para nada. Faria os possíveis para ter sexo com o Martini Men (já referido neste blog, não vale a pena procurar não é nada de mais e não o conheço muito bem mas é o sex-symbol do momento). Comprava 2 viagens ao Brasil, reservava o melhor dos resorts em pensão completa em nome dos meus pais. Tentava ser apanhada num inquérito de rua, em directo para a SIC e diria "Este país é uma tragédia. Por favor, queiram lavar as cuecas." Ou talvez aproveitasse para dizer "Fulano tal, morador no sitio tal, numero de telemovel 9xxxxxxx com quem já tive infelizes relações sexuais tem uma pila deste tamanho (e exemplificava com o mindinho)". Ou então: "Fulana tal, aquela que apareceu há bem pouco tempo num famoso concurso de TV que ocorre anualmente e tem a ver com cantorias, é, a meu ver, extremamente foleira". Depois ia comprar uns ténis que ando a namorar há meses. E um casaco e uns brincos também. Abordava um punhado de sem-abrigos e freaks de rua com um folheto da telepizza perguntando-lhes o que lhes cairia melhor no estômago e mandava vir e pagava inclusivé. Deixava uma mochila suspeita numa wc na assembleia da republica e fazia uma ameaça de bomba. Vestia o fato do Noddy e ia para o Continente do Colombo fazer uma campanha free-lancer até que viessem os seguranças agarrar-me, enxovalhando o personagem em praça publica. Ia correr desalmadamente pelas ruas da baixa, gritando como uma perdida "O Sócrates é um cagalhão!! É ou não é?!" espicaçando o povo o mais de pudesse, numa tentativa de fazer nascer um grande motim. Ia dormir num hotel de 5 estrelas com os mesmos amigos que meti no taxi, e, usufrindo dos mais convenientes serviços de hotel legais e ilegais, íamo-nos comportar como uma banda de rock indie em digressão (quais Babyshambles qual quê).
Enfim.
Ajudem-me a fazer crescer esta lista de coisas a fazer antes de esticar o pernil. Ou melhor, se esticassemos todos o pernil daqui a uma semana, ao mesmo tempo, numa grande catástrofe, o que teríamos a fazer antes?

Pensar nelas é, de algum modo, concretizá-las um bocadinho. (Será que eu já usei esta frase antes? É tão linda.)

Ps - Vale tudo. Sangue, suor, lágrimas, esperma, saliva, matar, fazer bébes etc.

quarta-feira, março 12

Bué de Pop



Correspondendo aos pedidos aqui fica um cheirinho da minha fronha (vixi expressão grosseira).

Agora tempo para um breve inquérito:

Qual dos seguintes temas gostarias de ver desenvolvido no Lady Oh My Dog?

- Remelas: causas e consequências
- José Socrates anda metido na droga
- 10 passos para a felicidade

Não percam o próximo post porque eu também não!