segunda-feira, setembro 29

serviço público



Esta manhã de segunda-feira foi uma das mais dolorosas de sempre. Foi por um triz que não fiz um telefonema sofrido a uma partner de trabalho. Nesses primeiros momentos da madrugada, a minha fraquíssima actividade cerebral está exclusivamente programada para ludibriar o patronato.

Como sou boa amiga, partilho com vocês o meu best of de desculpas. São a minha reserva especial, muitas delas nunca antes usadas. Algumas funcionam apenas para justificar um atraso, outras - uma manhã, e algumas, se aplicadas com mestria, permitem um bonito dia de folga:

“Tive uma noite péssima, nem sei bem o que foi. Até tenho uma pontinha de febre”

“Um cano da cozinha rebentou…casas velhas, sabes como é…, que merda.”

“Tenho de tirar o dia para ir à Loja do Cidadão, tenho tanta papelada para por em ordem…!”

“Tenho de ir ao banco, desapareceram 300 euros da minha conta!”

“Não posso continuar a ser negligente com a minha saúde, tenho de ir fazer análises.”

“Não consigo sair de casa, tenho o tornozelo que parece uma bola! Vou agora às urgências. Espero que não seja nada…”

“Morreu um primo de uma amiga minha, tenho de passar o dia com ela. Ela não está nada bem, coitadinha.”

“Acreditas que me cortaram a luz desde ontem à noite?? Tenho as contas todas em dia, pá!! Tenho de ir à EDP, aqueles cabrões…tenho o frigorífico a descongelar! Que sina a minha!”

“Hoje é segunda-feira?? Estás a gozar??! Que horror…ando tão cansada, até tenho medo do meu cansaço não ser normal…passei o Sábado a dormir e hoje pensei que fosse Domingo..."

“Houve um acidente horrível mesmo à porta da minha casa…eu vi tudo, foi horrível. Ainda estou a tremer e estou muito mal-disposta. Não consigo tirar a imagem da minha cabeça...”

“Perdi a minha carteira, tenho de ir à polícia. Fogo, logo hoje que queria despachar uma série de coisas!”
“Não dormi uma hora sequer, que desespero. Eu nem sou de ter insónias… Não vou aí fazer nada, nem consigo abrir os olhos. Vou tentar ir à tarde.”

“Estou na policia…depois conto-te tudo. É grave é! Uma emigrante ilegal anda a usar o B.I que perdi há 2 semanas!”


Usem o vosso bom-senso para entremear tudo isto com algum choro ou riso nervoso ou gemidos de dor.
Se também tu tens uma boa desculpa, por favor, mostra-me!

sexta-feira, setembro 26

big brother


Quando eu era pequena, o mundo é que era nice. Foi-se mantendo nice até à idade dos meus 10 anos, altura em que o meu irmão atingiu os 6 e de borboleta delicada e angelical, regrediu para um verme diabólico. Recordo com alguma amargura ainda, o momento da sua metamorfose. Foi um dia que até estava a ser agradável, um Sábado escolhido a dedo para me centrar sobretudo no meu habitat natural – sofá e TV.

Na tarde desse Sábado, estava sozinha em casa em total simbiose com o sofá mas entediada com o 2º dos 4 canais disponíveis. Logo senti uma urgentíssima necessidade do telecomando disponível à distância de 2 metros, ou talvez até fossem 2 metros e meio.

Ora eu, que sou mesmo boa pessoa, não ia incomodar-me nem alterar o grau de conforto em que me encontrava, até porque já na altura tinha de ter bastante cuidado com a minha baixa pressão arterial. Era bastante inteligente, por isso jamais arriscaria uma quebra de tensão.

(Hoje sou mais estúpida, principalmente porque sou alcoólica e insisto manter-me vertical quando tudo indicia o pior.)

Prontamente resolvi aplicar um método muito eficaz até então, lanço um grito desesperado e chamo o meu irmão vezes sem conta, como se estivesse a ser violada por um monstro verde e mal-cheiroso.

Eu, no rés-do-chão da nossa vivenda afortunada e algo pirosa (não fomos emigrantes na Suíça porque não calhou); ele, no sótão a brincar com legos. Portanto, ele tem de descer eu diria que, uns 32 degraus até ao 1º andar e outros 29 até ao rés-do-chão, mais uns 35 passos aflitivos (perna curta, coitado), até chegar até mim e perguntar (gago e belfo e estrábico)

– “O QUE É É É QUE SSSE PASSSA?”

(a minha consciência pede que eu esclareça que actualmente, a minha cabeça fica rés-vés sovaco da peste. E ele já não gagueja.)

(…e também não é sopinha de massa)

(ai deslarga-me consciência boazinha! Não! Não é estrábico!)

Eu, deitada no sofá mas não completamente de lado, simplesmente a 3/4 do leito, enquanto me delicio com o ar esbaforido e atormentado da criatura:

“Passa-me o telecomando”

“Onde é que ele está?”

“Ali, em cima do sofá. Estás cego ou quê??”

Ele estende-me servilmente o meu querido partner de ócio e sai da sala. Eu fico a pensar que a vida é fantástica e que cada um colhe aquilo que semeia. Eu colhia na altura, os frutos de uma boa educação incutida durante seis trabalhosos anos ao meu irmão. Muita disciplina e assertividade…por isso merecia tudo isso e muito mais. Estava nesta masturbação mental quando sou interrompida por um surpreendente:

“Óhh Mana!”

E eu olho repentinamente para a porta de entrada da sala, vejo algo a voar na minha direcção, mas no nano-segundo seguinte já não sei onde pára a Lady-Yes-I-Wan’t-It encontrando-me a chorar pela mãezinha com as duas mãos agarradas ao olho, enquanto largo litros de ranho. O meu irmão desaparece do local de combate enquanto a lata de Raid Casa e Plantas rebola pelo chão depois de ter esfolado a minha pobre sobrancelha de criança.

Estão a ver como tive uma infância fodida? Tenho as minhas razões para ser assim.

quinta-feira, setembro 25

meu baby

Ontem fiquei derretida com uma criança.

(ai de quem se atrever com o discurso “ai esse institnto maternal, esse relógio biológico, sua alucinada por bébés”)

(Credo. Espero que isto acalme quando o meu felino chegar.)

Tinha ares de ser nepalesa ou indonésia ou vietnamita e do meu ponto de vista tambem podia ser tailandesa,

(ai de quem se atrever com o discurso “não entendes nada de fenótipos, sua burra alucinada por bébes”)

Devia ter uns 4 anos e estava completamente autista, com o olhar a vaguear nitidamente noutra dimensão, enquanto fazia um discurso cantado alto e bom som, para vergonha da mãe:

Os policias cheiram maaal!
Os policiaaas são maus!
Os policias são mesmo feiiii–os!


(fez uma pequena pausa para tirar a pastilha da boca, admirou-a durante 2 segundos e voltou a mascá-la)

Os policias cheiram meeeesmo meeeeeeeesmo maal!
Eu não gosto nada de policias e mais ninguem gosta deles tambeeem!
Pois são mesmo maus e cheiram mal e são feios e maus e eu não gostoooo!


Adorável.

segunda-feira, setembro 22

agradecimento



De há uns tempos a esta parte, muito me tem apetecido deixar aqui o meu agradecimento sincero a umas certas senhoritas. Falo de uma espécie que, não tendo nada de interessante para fazer, se entrega a uma actividade antiga e não é pinar (isso é coisa que elas certamente não fazem com o terror que alguém descubra que são humanas e abanam).
O que esta espécie gosta mesmo é de foder o juízo alheio. E embora pareça contraditório, tenho de agradecer a este tipo de mulheres.

Obrigado por trazerem sempre o nariz torcido, a testa franzida e uma expressão constante de “dahh” nessas fuças. Devo dizer-vos que muito me alegram pessoinhas com um certo ar de trissomia 21.

Obrigado por terem 3 palavras a boiar aleatoriamente no lugar onde era suposto haver um cérebro, sempre em screensaver mode – Celulite, Laxantes e Rugas.
Obrigada pela vossa capacidade cobarde de medir forças pelo número de centímetros com que uma gaja se aguenta em pé, pelo número das calças ou pelo tamanho do sutiã.
Obrigada pela terapia de choque gratuita e bastante útil a uma ex-toxico-independente que esteve agarradinha à indução de vómito e ao abuso de diuréticos.

Minhas lindas:

Eu não tenho medidas 86-60-86 como podem verificar a olho nu, não tenho uma barriga lisa e seca, não tenho um cu de brasileira, não tenho uma altura de modelo.
Por outro lado tenho celulite, tenho flacidez, tenho cabelos quebradiços e tenho 5kg a mais e ainda por cima muito localizadinhos que eles estão, e não são muitos!, e não sou poucos!.

Obrigada por me lembrarem disso todos os dias.

Vocês obrigam-me a exercícios e a longas conversas comigo mesma. São conversas de um grau de intimidade tal, que vocês nunca terão porque se sentem desconfortáveis com o que são. Nunca nada está bem não é? Os filhos têm sempre qualquer coisa maçadora, os maridos sempre qualquer coisa irritante, a casa sempre qualquer coisa que falta, o carro sempre qualquer risco que incomoda, as férias sempre qualquer coisa a menos que as das amigas, as unhas sempre qualquer coisa que estala, a cabeça sempre qualquer coisa que dói, no mundo sempre qualquer coisa que enjoa e em vocês sempre qualquer coisa que não está nada nada bem.

Estão presas na falácia de um Perfeccionismo que nada tinha a ver com a minha antiga. Eu tinha um problema e a única pessoa que se fodia com isso era eu.
Vocês vivem uma crença fundamentalista e não se coíbem de foder o juízo dos outros, com todas as indelicadezas a que se permitem, tentando converter ateus a uma religião-massacre.

Obrigada por me ajudarem a recapitular as lições da minha sobrevivência.
Mas preciso que entendam: eu não tenho culpa de ser mais inteligente do que vocês, mais nova do que vocês, mais enérgica do que vocês. Eu não tenho culpa de ter uma família louca e maravilhosa. Eu não tenho culpa de ter uns amigos fantásticos e ainda mais divertidos do que eu. Eu não tenho culpa de ser independente, de ter a minha casa, o meu salário, os meus horários, as minhas idas ao cinema, as minhas festas, os meus jantares, as minhas compras egoístas, as minhas paixões e as minhas paixões. Eu não tenho culpa de ter uma vida-antípoda-dos-vossos-sonhos e não tenho culpa de me espatifar toda, de cair, de errar e de ceder dentro do possível (e às vezes dentro do impossível) ao que me apetece.

Agora continuai na vossa vidinha. Eu já estou satisfeita. Agradeço as vossas piçadas maldosas e não quero mais. Quero viver de uma forma muito diferente da vossa e com todos os problemas que isso me proporciona. Não é? Bastantes até! Mas tão risíveis e idiotas como vocês.

Tenho de vos avisar que a partir de agora, qualquer tentativa para me fazerem sentir anormal vai fazer ricochete.

Valha-vos a santa fluoxetina não é?

terça-feira, setembro 16

dark lady

Sinto-me Edward Gorey, Arcade Fire e Sylvia Plath. Tudo junto.


“Perhaps when we find ourselves wanting everything, it is because we are dangerously close to wanting nothing."
S.Plath

sexta-feira, setembro 12

amanhã este blog faz anos OU I hear voices


Apíi buurtei tu blóg
Apíi buurtei tuu mi
Api buuuurtei tu aaase
Api buuurtei to iúu! Cu! Cu!


Se o meu pai soubesse da existência deste blogue, este aniversário seria agraciado com uma cena que se repete 5 vezes por ano na minha casa.
Há uma tradição inquebrável no nosso núcleo familiar – eu, mãe, pai, irmão, cão. Também há os gatos, mas tivemos a delicadeza de os poupar a isto pois eles ficavam bastante nervosos.

Sempre que um de nós faz anos, o chefe do clã – o Papi - mantém um estranho ritual (juro por deus que é verdade, tenho amigos que já assistiram e não me deixam mentir):

a) Se estamos em casa, o Papi desce as escadas pela manhã, dando pequenos pulinhos, geralmente de cuecas, enquanto grita “Apí burtei tu iú! Cu! Cu!!” Atenção – este comportamento repete-se inclusivamente na sua própria data de aniversário. Eu, que sou das primeiras lambonas alapadas à mesa do pequeno-almoço, engasgo-me sempre.

b) Se é ritual à distância, é qualquer coisa como isto:


Eu - “Estou papi?”

Papi - “Api burtei tu iú!! Cu! Cu!”

(Ele ri-se. De nós os 5, é o que acha mais piada a esta macacada)

Eu - “Ahh…obrigada pai…estou a ficar ve…”

Papi - “Cu! Cu!”

(mais risos do outro lado da linha)

Eu abano a cabeça e não consigo deixar de sorrir, o que deve ser dos nervos.

Papi – “Vá filhota, passa um bom dia ok?”

Eu (sereno um pouco) - “Sim…olha lá, a minha prend…”

Pai – “CU! CU!” (ri-se alarvemente)

A esta altura é impossível prosseguir qualquer conversa.


Mas como o meu pai não sonha com a existência deste blogue, vou festejar normalmente e desconsiderar o facto do aniversário ser só amanhã. O que dizem que não agoira nada de bom ao aniversariante. Paciência blogue. É que amanhã vou partir para um resort bastante longe de Portugal. Só estarei a mentir se por um grande acaso não ganhar o Euromilhões de hoje.

Por isso o discurso de aniversário tem de ser agora mesmo:

(Aclarar a voz, kleenex numa mão, microfone na outra)

Há exactamente um ano atrás estava a passar uma tarde algo difícil no meu trabalho. E como tinha mesmo muita coisa para fazer, senti aquele apelo idiota de me distrair com outra coisa qualquer que fosse pouco séria e que me fizesse esquecer as preocupações. Ali, no imediato, era impossível alcoolizar-me.

Estou a brincar! Por acaso era possível.
Mas estava sensível nesse dia, lembro-me perfeitamente.

(As pessoas sensíveis não são capazes de matar galinhas, porém são capazes de fazer um blogue.)

Volvido um ano de blogue, devo dizer que até estou a gostar de vir aqui. É divertido. E é divertido sobretudo porque vocês de vez em quando até passam por aqui e comentam estas palhaçadas, o que me faz sentir menos sozinha na minha loucura. E porque vocês também não batem muito bem da mona, o que mais divertido é! E entre o vir aqui e ir aí sempre se vai aprendendo mais alguma coisa, que não há coisa mais bonita que a troca de saberes. (“bonito, bonito…”)

Já estão mimados o suficiente? Podem continuar a aparecer se quiserem. Prometo que não vos faço mal.

quarta-feira, setembro 10

um dia vai ser assim

Para lá da janela, as árvores.
Para lá das árvores, o mar.

À noite, dentro da janela e para lá da janela, até às árvores e para lá das árvores, até ao mar e no mar - uma grande festa:

karaoke
piscina e jacuzzi
maçãs
pistolas de água
caipirinha
insufláveis
gelados
carrinhos de choque
trampolins gigantes

e há-de haver mais coisas nesse playground

dress code - chinfrim

Vocês sabem que um dia vai ser assim, não há hipótese! Estou condenada a ter um património brutalíssimo e uma vida requintada. Não sei antever o meu futuro de outra maneira.

Amores da minha vida, inspirem-se!
http://www.lastnightsparty.com/karaokekilled/index.html

sexta-feira, setembro 5

nada como uma boa fase 4

Hoje a caminho do trabalho, dei por mim a pensar que o que calhava mesmo bem este fim-de-semana era conhecer um homem com pronúncia portuense, bastante rico, que me levasse a passear lá prás suas bandas e me deixasse à porta de casa no Domingo à noite. Aliás, que me deixasse à porta de casa no Domingo à noite e que se despedisse de mim com um beijinho repenicado na testa depois de ter arfado até ao 2º andar com roupa, acessórios, livros e consumíveis vários em sacos pendurados nos seus braços fortes.
Logo depois fiquei envergonhada com o meu pensamento cruel. Como é que é possível ter uma visão tão utilitária dos homens? Passado o fugaz instante de culpabilização, resolvi fazer um flash-back para tentar encontrar o início da minha maldade.

Pois bem, tudo começou em 1998, quando entrei para o 9º C e vejo o T. a entrar para a aula de apresentação, com 15 minutos de atraso e uns All-Star esfrangalhados.

O T. era um repetente popular da malta dos rebeldes, jogava Basketball, tocava saxofone e era louco pelos Queen. Passada a loucura das primeiras semanas de aulas, comecei a assentar arraiais e vi logo que aquele ano ia dar merda. Activei o meu sistema defensivo e resolvi negar o que estava a acontecer. Não podia estar apaixonada por aquele rapaz, ainda por cima daquela maneira tão patética, ainda por cima quando tinha 80% da comunidade feminina + 2 grandes amigas rivais a suspirarem para cima de mim, convictas de que eu era “território neutro”.

Eu e o T. começamos a falar de música e da vida em geral e assim passávamos quase todos os intervalos. À medida que fomos estreitando laços passámos a estar em par também às horas de almoço e fins de tarde entretidos com grandes questões – Humanidades ou Científico-natural? Será que a Courtney obrigou o Kurt a matar-se? E se fizéssemos uma ameaça de bomba?

Com o lado feminino estava tudo controlado. Ninguém planeava o meu enforcamento em praça pública porque me tomavam por boa samaritana.

Até que aconteceram duas fatalidades que erradicaram o meu estatuto de fiel-amiga-casamenteira e me concederam o de puta-dissimulada: primeiro o T. arranjou maneira de se sentar ao meu lado nas aulas de matemática, português, inglês e físico-química. Depois eu tive a brilhante saída de lhe pedir para me ensinar a jogar Basket.

A partir daí o meu mundo descambou, fui acusada de ser uma grande cabra e excluíram-me para todo o sempre de dois grupos: o das meninas populares e o das boas alunas.
Num desses dias negros, estava eu no WC munida com o X-Acto pronta para me suicidar, quando descobri uma tipa que era apanhadinha pelo Jim Morrison e retocava as suas olheiras com um eyeliner. A vida passou a valer a pena mais uma vez. (sem bons amigos é que não foda-se)

Eu e o T. fomos enchendo vários cadernos A4 nas aulas, com perguntas, citações, desenhos, recadinhos e piadolas. Até que chega a hora de almoço mais importante da minha vida de mulher, et voilá, levo com o meu primeiro beijo na boca e com língua, a sério (ou seja - in love) que até fico a ver estrelas. Foi num banco em pleno bar onde já andávamos à que tempos a ronronar mas mesmo assim eu não fazia a mínima ideia que ia ser naquele dia, àquela hora e naquele lugar.

Recapitulando a história do meu primeiro amor, consigo entender com exactidão 5 fases que passo quando estou tragicamente apaixonada:

Fase 1 - “negação”
Fase 2 - “deixa-andar”
Fase 3 - “entusiasmo fervoroso”
Fase 4 - “consumação”
Fase 5 -“repelir e/ou matar o pobre aranhiço qual viúva negra”
(quando milagrosamente superadas as fases anteriores) Fase 6 – “BINGO!”

Espero não estar a chocar nenhuma leitora de 14 anos, mas é mesmo verdade – há 10 anos atrás curtir com alguém era só beijar, apalpar e ser apalpada.

Durante uns dias continuei em alegre reboliço com o T., muito embora já andasse a antecipar a fase 5. Sortuda como sou, logo me aparece a oportunidade de ouro.

E a partir de agora só lê quem tem estômago para estas coisas ok?

Por esses dias o Prof. de Português ordenou que cada aluno apresentasse um trabalho sobre Os Lusíadas. Essas apresentações iam acontecer ao longo de uma semana e eu era antes do T. Brilharam-se-me os olhos que semi-cerrei para aguçar a visão mental do plano que nascia ali.

Na semana seguinte não faço mais nada - roubo o trabalho ao T. um dia antes da minha apresentação, tiro uma cópia do trabalho e dos acetatos e volto a colocar o trabalho na sua mochila empoeirada. No dia seguinte apresento descaradamente o trabalho para toda uma turma e não tenho qualquer pudor em olhá-lo nos olhos enquanto esmiúço o acetato projectado na parede, com o rosto maleficamente colocado em contra-luz (“Tu, só tu puro amor com força crua, bla bla bla”)

(Eu tive uma infância fodida, foi o que foi.)

Quando a aula acabou, acabou também a nossa relação e passámos meses e meses sem trocar uma palavra.

Agora sim, o mítico final feliz:

Depois de penar e amadurecer um bocadinho, lá consegui estrear-me na fase 6, quando conheci na faculdade um idiota que também aplicava e dominava a fase 5. Uma besta como eu.
Desde então decidi domar os meus impulsos da fase 5, já que passar para a fase 6 permite não só o usufruto das diversas benesses sexuais da bigamia, mas também o cultivo do nosso lado mais bondoso.

Só que, ainda fraquejo. Como hoje de manhã.

terça-feira, setembro 2

tã nã tã tã tãan…she’s loving it!


Era uma vez uma gaja. Essa gaja trabalhou durante uns anos num restaurante conceituado e abonado com uma estrela Michelin, onde era responsável sobretudo pelos croquetes.
Essa gaja adorava trabalhar nesse restaurante, adorava os empregados fardados, as cozinheiras despachadas, o tlim-tlim da loiça, a chefe da limpeza e sobretudo, adorava o chefe de cozinha que era um primor (Dia sim, dia não. Mas um grande amor). Essa gaja acordava todos os dias muito feliz, tirando certos dias em que acordava de mau humor.

(Desculpem, estou a mentir.)

Essa gaja acordava sempre de mau humor.

(Desculpem, estou a suavizar.)

Essa gaja tinha um humor matinal incompreensivelmente detestável. Incompreensível porque, há que ver a verdade como ela é, essa gaja era tinha uns bons dentes, os melhores amigos do mundo, uma família abençoada, um cão muito fofinho e, cereja em cima do bolo, um trabalho que a completava.

De repente aparece a ASAE, que encontra uma toalhita desmaquilhante da L’Oreal daquelas que removem mesmo o rímel waterproof, atrás da sanita num dos wc.
Não foi exactamente assim. Mas o que importa reter é que a ASAE não esteve com modas e fechou o estaminé. E a gaja viu-se agarrada aos tomates. Estou a mentir outra vez. A gaja não tem tomates para agarrar. Quando muito, croquetes. (relativamente a esta “piada”, espero o vosso sincero perdão).

Sendo esta gaja especializada em achaques de Drama Queen, seguiram-se dias negros. A reacção foi típica: ficou doente, achou que o mundo devia acabar JÁ!, chorou 18h por dia, acabou com o stock de lenços/rolo de cozinha/papel higiénico de casa, gritou desesperada, bateu com a cabeça nas paredes até entrar em transe. E passou noites numa ladainha doentia:

“...o mundo é uma merda, quero morrer, tenho de arranjar 605 forte, nunca tive um momento feliz na vida, o que é que eu faço aqui? o mundo é uma merda, quero morrer, tenho de arranjar 605 forte…”

Regra geral, depois de 2 horas nisto, ela perde a coordenação e o controlo motor.
Depois de ensopar 3 almofadas de lágrimas, ranho e baba e quando já não conseguia ver um boi à frente dos olhos, achou que estava na hora de ficar por ali.

Acontece que a gaja viu-se obrigada a procurar trabalho como responsável de croquetes, mas como se costuma dizer em histórias dramáticas – a vida pregou-lhe uma partida.
A pobre gaja teve de aceitar trabalhar no Mc Donalds. Como é sabido, não existe o Mac Croquete, e portanto, agora ela é responsável pelos Sundays de Caramelo e às vezes pelas Chicken Mc Nuggets.

É tão triste esta história. Não vos vou deprimir mais.

Agora uma informação para vos alegrar e mostrar que é possível encontrar um novo alento na vida, mesmo quando tudo parece terrível: amanhã esta gaja vai inscrever-se num desporto de combate!
Vai ficar forte como um leão e vai oferecer porrada sem medo!
Embora estejamos (ah como me sinto sempre acompanhada) a falar de um desporto de combate para gajas. E que não é muito a sério.
Na verdade chama-se Body Combat.