Hoje sonhei com o meu ex – eu estava numa paragem de autocarro, deitada a dormir no banco, e entretanto chega-se o rapaz, deita-se ao meu lado, abraça-me e pronto. Ali ficamos a roncar.
O meu ex que, é o meu único ex, assim a sério. Porque tudo o resto foram brincadeiras que duraram umas semanas ou uns meses e não eram oficialmente um namoro, como este foi, o único totally old-school – “namoras comigo? - I do”.
Um namoro mesmo à séria. Daqueles em que uma gaja chega a ter direito a meia dúzia de doces do Algarve quando a sogrinha vai de férias.
Éramos uns agarrados à coca. Estou a brincar. Éramos uns agarrados um no outro, que aquilo era só love e o primeiro meio ano foi um paraíso. Depois no outro meio ano aquilo já era vida de casados, partilhávamos as limpezas domésticas e chegou o dia em que dei por mim a passar umas calças a ferro (juro por deus, até tenho uma fotografia – eu de vestido às bolinhas e bandolete vermelha que até parecia a Alice no país das Maravilhas, com a diferença de que não haviam cogumelos mágicos mas calças por passar. Clic! Mais um momento-zénite da minha existência.)
Na verdade aquilo era amor, daqueles amores que, eu acho que só acontecem umas três vezes na vida (fal-tam--me do-is, nhã nhã nhã nhã nhã nhãaa) a pontos de termos dormido juntos praticamente 365 noites numa cama que não era de casal. Eu acho que é preciso gostar muito de uma pessoa. Uma cama individual para duas pessoas é um inferno em qualquer situação. Menos naquela.
(embora, no fundo no fundo, o sonho de hoje revele algum pequeno trauma ligado a essa falta de espaço)
Gostámos tanto um do outro que chegámos a falar de duas grandes asneiras – ter filhos e partilhar a mesma tatuagem. (Deus – Obrigada. A sério, obrigada.)
O grande mistério é que eu não faço a mais pequena ideia de como é que pude gostar de uma pessoa assim. Não é por mal que digo isto (coitadinho) mas é que hoje não vejo qualquer tipo de interesse naquela criatura que hoje resumo em duas palavras - dependência e ciúme.
E isso foi toda a nossa relação, que eu às tantas aprendi tão bem a lição que para o fim também já fazia fitas bem bonitas. E dramáticas que elas eram.
E ele que não era deslumbrante. Nem era inteligente a pontos de me deixar espantada com tanta faculdade mental. Nem era tão culto a pontos de me fazer babar como se tivesse trissomia e o cérebro feito num aquário de peixes mortos. Nem sabia cozinhar (zero - nem um ovinho cozido). Não tinha carro próprio. Os poucos amigos que tinha eram gente esquisita. Não era ambicioso. Não era optimista. Não era desenrascado. Não era aquele género de palhacinhos que nos fazem rir a toda a hora. Nem era rico. Nem lhe reconhecia ali um talento especial para qualquer coisa.
O que é que ele tinha de bom afinal?
Assim de repente, a única coisa que me vem à memória, são uns dentes lindos. E uma grande
grande não, assim de bom tamanho
aquele tamanho que é
por exemplo, quando nos é pedido: imagina a mais perfeita e a mais
ali não era preciso imaginar.
O que é que foi? Não olhem assim para mim.