quinta-feira, março 5

a bulímica, a bipolar e a depressiva

O secundário passou-se na companhia intensiva de outras duas desgraçadas como eu e juntas éramos tal qual as virgens suicidas, mas numa versão mais punk-rock (vinho de pacote do mini-preço e bisturi para os cortes e pactos de sangue - vivam os comportamentos de risco).

Metemos na cabeça que havíamos de comprar uma guitarra e lá fomos nós - uns vinte e tal contos cada uma, mais cinco contos cada capa (e eu que perdi isso tudo no divórcio, mais uns prints que tinha feito e que ensinavam a tocar o “Stand by me” - já agora - coirão de merda).
Nunca aprendemos a tocar.

Fomos chamadas à saída do portão, pela profe de filosofia, que tinha a certeza absoluta que nos íamos matar ou que, pelo menos, andávamos metidas na droga até ao pescoço. Levou-nos no carro dela até à ribeira, só para falarmos das coisas e podermos fumar à vontade enquanto chorávamos por assuntos que nos doíam muito – como o Kurt ter morrido.
Nunca sarámos essa tristeza.

Descobrimos uma cadeira de madeira muito antiga no lixo e levámo-la até ao meio do mato (cadeira era trono e mato era floresta, isso sim era poético) e era para lá que íamos nas tardes de Maio e Junho, beber Martini, porque aí o vinho de pacote não fazia sentido, e líamos Pablo Neruda porque era super romântico e ainda por cima era bué de esquerda. Esse era o homem perfeito – romântico e bué de esquerda – se usasse calças de bombazina e se, ao mesmo tempo, fossem à boca de sino – ah! isso era ouro sobre azul.
Nunca encontrámos esse homem.

Nas aulas de alemão, compensávamos toda a nossa vertente melancólica untando os dentes com nutella enquanto ríamos descontroladamente porque éramos, a meine clique. Mas meine clique era para nós a meine crica (éramos exactamente assim – umas virgens suicidas grosseironas) como muitas outras coisas eram muitas outras coisas só na nossa linguagem.
Nunca aprendemos alemão.

Naquela terra não havia quem não nos olhasse de lado. Achavam que íamos para o meio do mato fazer macumbas com galinhas, só porque desenhámos uma estrela de cinco pontas no chão e costumávamos andar de cuecas. Achavam que andávamos metidas na droga só porque pintávamos olheiras com um eyeliner preto. Achavam que éramos esquisitas porque tínhamos conversas esquisitas. Achavam que nos íamos matar porque trazíamos os braços todos cortados.

Que gente preconceituosa.



Come as You Are - Nirvana

21 comentários:

Mr. M disse...

Isto soa a o teu proprio "Stand By Me"

:)

muy bueno

the lady does it again!

P. disse...

a parte da cadeira no meio do mato é muito donnie darko. cool :)

paperdoll disse...

ah those were the days! :)

Rita Maria disse...

Qual delas eras tu?

Cindy disse...

5 estrelas!
Só quem não viveu desses momentos é que se pode arrepender!!

Beijokas e bom fim-de-semana!

MissKitsch disse...

Virgens suicidas grosseironas é das melhores imagens que tenho tido!
Eu também sofria com a morte do Kurt. Era uma angústia daquelas, que remói por dentro.




Epah, grande texto!

crème fraîche disse...

eu cá sinceramente só sofri com a morte do kurt assim já a dar para o fora de horas.

as fases passraam pela metaleira até à pastilhada.

foi bom.

como diz a paperdoll, THOSE were the days *sigh*

Golem disse...

Pois, qual delas eras tu...?

E que raio de terra é essa em que as pessoas não usam cuecas...? eheheh

Maria Inês disse...

my vote goes to bipolar;)

Tiago Ramos disse...

Estas retrospectivas da nossa adolescência são tão curiosas! :P

Lady Oh my Dog! disse...

ahahaha! bonito!

"qual foi a doença mental que atrofiou a Lady Dog na sua adolescência?"

estão abertas as votações!!

(sempre revitalizante esta coisa de me auto referir)

Rita Maria disse...

Eu também voto em bipolar mas nao lhe dou muito crédito (isto é, na versao de bipolar: eu nao tenho nada mas de vez em quando ando histérica e outras vezes triste, também há quem lhe chame adolescência).

Golem disse...

Eu voto em bipolar!!!

pó de arroz disse...

Eu vou desfazer a curiosidade de todos e estragar o jogo...a lady é a búlimica a bipolar é a bipolar ninfomaníaca e eu sou a ex-depressiva.
Se quizeres voltar a brindar a esses tempos liga.

Lady Oh my Dog! disse...

é caso para dizer - zangam-se as comadres, descobrem-se as verdades.

(e este post que era uma declaração de amor...)

já agora:
very ex-bulimica.

pó de arroz num ataque de escrita crónica disse...

Eu sei que este post era uma declaração de amor, mas tu merecias uma pequena vingança...
Estamos quites?
Ou enforeci a fera?

pó de arroz num ataque de escrita crónica disse...

enfureci

Hydrargirum disse...

Isto fez me lembrar o filme The Craft...:)

Tu es priceless repito!!!...o modo como misturas rebuscado e corrente e fora de serie!:)

:)

Rita Maria disse...

És fantástica.

PKB disse...

A adolescência.... inconfundível, incomparável, impossível! =)

Miss Pu disse...

Maravilhoso TEXTO!

Those were the 90's. Tb chorei que me fartei com a morte do Kurt.

Muito bom, Muito bom mesmo!