Nestas últimas semanas dediquei horas (muitas horas) à procura do meu passaporte português. A última vez que o tinha usado foi há quatro ou cinco anos numa ida a Marrocos e depois disso juro a pés juntos que o vi já nesta minha casa, mas o que é facto é que não o encontrei.
Por isso hoje foi o dia de me deslocar à famosa Loja do Cidadão para tratar deste assunto.
Cheguei cerca de uma hora depois da abertura de portas e dirijo-me à recepção:
- Bom dia, para tirar o passaporte, onde é?
- É no segundo piso mas não vale a pena que não temos mais senhas.
Pronto, eram más notícias, é verdade. Ainda assim, subi as escadas, confiante, e dirigi-me ao balcão:
- Olá. Uma perguntinha: aqui a maquineta das senhas diz que não há mais senhas. Como não há mais senhas? Eu vou viajar, tenho de ter um passaporte!
- Pois aos sábados é assim.
- Pois mas eu trabalho de 2ª a 6ª, não posso faltar senão sou despedida por justa causa, portanto restam-me os sábados. E eu no próximo sábado não posso mesmo (olhinhos de bambi, boquinha de nenuco chorão) e no outro terei de estar no aeroporto com o passaporte que tanto preciso (olhinhos marejantes de bambi, boquinha de trissómica)
- Pois, não posso fazer nada. E agora tenho de atender esta senhora, lamento.
- Pois mas como é que é? Eu fui roubada, tenho lá culpa! Roubaram-me o passaporte! O que é que uma pessoa faz nestas circunstâncias?? Peloamordedeus, tem de haver alternativas!!
- Pois mas não há. Agora terá de sair aqui do balcão se faz favor. Bom dia.
Retirei-me com a maior elegância que consegui e encostei-me à parede a ver a minha vida a andar para trás. Faltar ao trabalho – muito fora de hipótese. A alternativa seria partir o coração ao meu pai, a quem prometi há mais de meio ano umas mini-férias para lambermos os dedos de peixe e marisco (yummi yummi), que eu não ando aqui a arranjar os dentes só para parecer bonita.
E estive assim, encostadinha à parede a pensar como resolver o problema. Eis que surge a ideia-luz: comprar a senha B a alguém. Realmente o dinheiro paga quase tudo. Estive a analisar potenciais fornecedores da dita senha, mas o cenário era pouco animador – casais aos amassos pelos cantos a sonharem com as férias a dois, famílias felizes a sonharem com as férias a quatro, as pessoas que estavam sozinhas muitíssimo bem vestidas e apertaltadas para a foto, que se estaríam a cagar de alto para mim e para os meus (no máximo dos máximos) 30 euros e pessoas com tão, mas com tão mau aspecto e tão mal-encaradas a quem me faltava lata para abordar.
Eis que, no meio do caos, encontro uma réplica do Obama. Um tipo normal, com uma pastinha na mão, uns ténis normais e mais ou menos lavados como os meus, uns olhos sinceros e uma senha B na mão. Respiro fundo e aproximo-me:
- Bom dia, desculpe incomodá-lo, mas…tem a senha B?
- Se eu tenho a senha B?
- Sim, tem a senha B? É que já não há mais senhas e eu estou numa situação delicada, vou viajar, roubaram-me o passaporte e eu queria perguntar-lhe se estaria interessado em vender a sua senha (o meu rosto em angelical-mode é indescritível).
- Ah! Sabe, eu nem vou tirar o passaporte (e saca do bolso a senha A). Eu tirei esta senha por engano, tome é sua! Vá com Deus e muito boa viagem!
- AHHHHH! Obrigadíssima!
Sorri aliviada e constatei que era o número 151.
4 hours later...
Era a última pessoa ali. Pode ser difícil de acreditar, mas aquela senha era exactamente a última (esclareceram-me que costumam encerrar a emissão à 150º senha)
Fiquei nojenta na fotografia, já que fui obrigada a mostrar o mais possível as orelhas e as sobrancelhas e tive de ajeitar o cabelo por forma a parecer uma doente mental.
Na altura de pagar, esqueceram-se de me cobrar os 30 euros da taxa de extravio. O que é fixe.