segunda-feira, julho 27

betadine

Ela coleccionava, muito desatentamente, pequenas despedidas e pequenos regressos que, para além de lhe fazerem estragos nem sempre absolutamente reversíveis, empatavam-lhe todo o espaço de ar respirável, nos pulmões, pelo esófago adentro, através da boca angustiada e em muitos outros lugares difíceis de especificar – é muito difícil para miúda que mal sabe falar português, explicar as dores da sua anatomia confusa – talvez, qualquer coisa entre os rins, o fígado e o apêndice
a barriga?
não, o estômago
o apêndice?
não, o estômago
Pequenas despedidas e pequenos regressos que deveriam ser explicados tim-tim por tim-tim, postos preto no branco, os pontos nos is, porque assim se pouparia a desordem nos pulmões e esófago e coração e boca e estômago e tudo o que é entranha suspensa em vácuo, o organismo encerrado para obras, a meio gás, anémico e depois,
um ritmo cardíaco preguiçoso, fartinho de tantas pequenas despedidas e pequenos regressos, que se acumulam rosto após rosto e com truques iguais
como aquele enjoo de não sei quantas mil milhas, mais uma gata que pariu numa casa abandonada e toda suja porque às vezes nem aos domingos se lembravam de a limpar e a empregada, coitada, era praticamente cega e só se lhe avivava um bom olho quando descia ao escuro da adega para roubar garrafas de vinho,
mas isso nem era o mais importante,
o problema era o falso piso de madeira podre, que era um embuste doloroso ao mínimo descuido, um número absurdo de estranhos por dia, o entra e sai naquela tasca de província, onde ela andava num sufoco idiota de tão perdida, tudo às custas de ser uma mulherzinha muito atinada, do alto da sua idade infantil,
que passa os dias a promover uma intensa campanha pelo que está certo e errado, a tentar construir casas de brincar com uma forte sustentação, pilares feitos de grades de sumol e aquelas antigas caixas fortes de groselha todas meladas a vermelho escuro
e depois coloca os irmãos na sala, mas a gata insiste em escondê-los no casarão velho, onde ela de tempos a tempos lá tem de correr o risco de se esfanicar toda, só para poder ter uma família instantânea.
Há coisas que nem aos vinte e muitos anos se entendem.
Pequenas despedidas e pequenos regressos que já cansam, de tanto acontecerem encavalitados, uns por cima dos outros, como uma coluna a abarrotar de vértebras armadilhadas, daquelas que vale mais nem ter, que o sofrimento não compensa tanta vontade de se quer manter de pé.
Continuam-lhe a sobrar umas costas tão feias, tão tortas, tão pouco cicatrizadas, que até faz impressão e vê-se perfeitamente que aquilo só lá vai se ela continuar a lamber as feridas.

4 comentários:

R.L. disse...

um bocadinho de alcool as vezes ajuda...

Anónimo disse...

Uaaaaaaaau
Esse post vai pro meu livro... Com certeza!!!
Deixa?

bjs

gato gato gato gato

Lady Oh my Dog! disse...

sócia,

é claro que eu deixo :)

beijos

Emma Bovary disse...

Adorei este texto, cheio de suminho e cores e ritmo... Não faço ideia do que lá diz mas fico-me pelo deslumbramento da forma! :)