terça-feira, setembro 29

mogli

A Casa Velha ficava exactamente ao lado da casa dos meus avós. No rés-do-chão, há muito tempo atrás, havia uma taberna, uma adega, uma mercearia. No primeiro andar a casa onde a minha avó nasceu. No sótão as arcas cheias de roupa, mantas e lençóis.

Eu conheci a Casa Velha sozinha, acabadinha de chegar de um universo asséptico e alcatifado, sem formigas, teias de aranha, frio, calor, lama, humidade, pó, vento ou qualquer outro indício de um mundo inconstante. Oito anos numa caixa forte, numa cidade cinzenta, num país hermético e depois sou teletransportada à velocidade do que é costume em teletransportação para o mesmíssimo país das maravilhas da Alice, era o que eu pensava. Era impressionante e o meu coração estalava nervoso porque afinal sempre existiam gatos, cães, galinhas, patos, porcos, ovelhas, cabras, aranhas, centopeias, minhocas e outras coisas e tudo do lado de fora da televisão.
E depois havia a Casa Velha.

Não havia tempo nem paciência para tomarem conta de mim e por isso passei uns ricos dois meses sem ouvir uma única vez

vai tomar banho, o que é isso no braço, come a sopa primeiro, gosto muito de ti, está na hora de dormir, não brinques com fósforos, deixa-me apanhar o teu cabelo, ata os sapatos, senta-te aqui ao pé de mim, não fales com estranhos, não comes mais doces hoje, está frio não podes ir só de t-shirt

Não havia mãe nem pai nem irmão nem ninguém que eu conhecesse. Tinha dois avós desconhecidos e um tio que passava o tempo todo a chatear-me o mais possível (tinha 16 anos e aquela guerra hormonal só lhe dava para inventar histórias de merda - “olha, os teus pais morreram num acidente de avião, por isso, agora moras connosco”).
Eu andava preocupada com uma coisa que não dava para explicar a ninguém - eu penso em inglês mas falo em portugês, oh não, a minha vida está um caos.
Fiz anos sem soprar as velas, o que foi bom por um lado, porque eu não podia inspirar com força. Recebi um cartão de aniversário da minha mãe que me pedia para ter paciência que ela estava quase a chegar e que não devia chorar. Tínha de cumprir o melhor possível a única ordem que recebia há meses, embora isso me custasse um peito dorido.

Podia passar muitas horas sem aparecer, nunca me perguntaram

onde é que andaste, o que é que estiveste a fazer, estavas com quem, porque é que não disseste nada, já comeste, magoaste-te, estiveste a brincar com a andreia, onde está a boneca que te comprei, como é que está o corte no pé, já puseste água oxigenada

E eu, como nada do que fazia parecia suficiente para chamar a atenção e nenhum perigo parecia dar cabo de mim de uma vez por todas, anda sempre à procura da next big thing.

Nada superou o risco da Casa Velha. Os soalhos podres, o tecto desabado nos quartos, os móveis a ameaçar uma queda a qualquer momento, os pregos tortos a saltar das madeiras, os tecidos rasgados e cheios de bichos, as janelas sem vidros e um ou outro pássaro morto que nunca deu com a saída.
Ainda não entendi se me queria esfolar à séria no meio daquilo tudo ou se o meu fascínio residia naquele abandono igual.

9 comentários:

R.L. disse...

escreves lindamente, porque, tudo o que escreves vem de dentro. talvez dessa casa velha.

Nocas 75 disse...

Impressionante!!!

Escreves com a alma e o coração na ponta da caneta!

Quanto ao que descreves...grande capacidade de resistência, de persistência...de grandeza interior.

Impressionante!!!

Anónimo disse...

Porquê que a internet não dá para dar abraços??
Era o que faria agora se te conhecesse e pudesse...
Ana

Ruca! disse...

tu és muita forte!

Anónimo disse...

Olá miúda. De regresso a esse buraco vazio por cima do qual ergueste esse castelo maravilhoso feito de uma transparência comovente. Parece frágil mas não é. Parece sólido mas não obstante. A vida é lixada.

Anónimo disse...

Eu uma vez fui com uns vizinhos assaltar uma casa velha que era da minha avó. Só tinha uma porta, por onde entravam as pessoas e o burro, que antigamente morava lá dentro numa salinha à parte. Entrámos por uma janela nas traseiras e subimos ao primeiro andar. Veio um morcego e arranhou a cara ao João.

Amigo de Coimbra

Emma Bovary disse...

:) eu também tinha essa "grandeza" emocional do pensar em inglês.. e falar sozinha, com expressão facial e tudo. God.. lol

Anónimo disse...

Este amigo de Coimbra é uma pedra :)

Rita disse...

Espectáculo.