A Gisela nasceu sob o signo de Capricórnio, a 29 de Dezembro mas não estava assim tanto frio. A primeira memória que tem é esta: teria uns quatro anos mal feitos, uma otite muito feia e uma birra que se prolongou durante várias horas. Conseguiu apanhar a mãe distraída para se esquivar até à porta da casa da vizinha onde desatou aos pontapés e desalinhou o tapete de entrada. Tudo o que ela queria era o globo de neve com aquelas figurinhas de plástico desbotado (uma já a boiar) no líquido que talvez lhe lembrasse o amniótico. Nunca se sabe muito bem se estas coisas são verdade ou mentira. Isto da psicologia são só suposições.
Gisela cresceu, Gisela aprendeu a viver com os três dedos tortos da mão direita (andava a gatinhar pela casa quando resolveu apalpar a tomada da electricidade e deu no que deu), Gisela sobreviveu àquele episódio no verão. Aquele episódio no verão conta-se rápido: Gisela não sabia nadar, estava ao pé do rio em cima de uma rocha de quatro metros em relação à água e o tio que era doente mental derivado à consanguinidade de duas gerações anteriores, achou graça, naquelas circunstâncias, em dar um safanão a Gisela. 750 ml de água bebida e inalada e Gisela had survived. Eu teria oferecido à Gisela uma t-shirt “I Survived my Uncle”.
Um dia, já a Gisela tinha 17 anos, estava a almoçar em família, quando o seu pai achou que não era tarde nem era cedo. Era já ali. Tombou em câmara lenta para o colo de Gisela e nunca mais deu mostras de estar vivo.
Grande cena, muita confusão, andaram ali uns meses a achar que se calhar era demasiado horroroso para ser verdade. Foi então que a mãe de Gisela achou que também não era tarde nem era cedo e enquanto chegava e não chegava a factura da funerária, foi-se. Que eu saiba não houve nenhum desconto especial. Toda a gente assume que o leve dois pague um só funciona no mundo dos iogurtes.
Entretanto um Natal muito triste e uma Páscoa ainda pior. O irmão mais velho de Gisela finou alcoólico aos 33 anos (deixando viúva a macumbeira Celeste, com dois filhos pequenos, que by the way, morreriam os dois na mesma semana, 33 anos depois – não se deve abusar do cavalo – deixando de vez sozinha a macumbeira Celeste).
Gisela foi morar com uns tios ricos, porcos e maus e apesar de ter uma Esmeralda para lhe aquecer a água a todas as horas e não lhe faltarem as natas frescas no café da manhã, Gisela apressou o seu casamento (o seu bom casamento) com um rapaz muito lindo e tão boa pessoa que lhe aturou o alcoolismo por três anos. Depois ninguém aguentava mais aquilo. Gisela foi para o sanatório. Gisela saiu de lá como nova e fez logo duas filhas. Uma delas morreu nas primeiras horas. A outra é a minha mãe.