domingo, junho 27

lady macbeth

Há uns dias, ao terminar um dia de trabalho, não sei como nem porquê, convenci-me que o jantar haveria de ser sapateira recheada. Antes de avançar para esta história, convém deixar esclarecido que:

a. Nunca tinha feito sapateira;
b. Não disponho de um aquário em casa com sapateiras.

Dadas as circunstâncias, dirigi-me - devidamente equipada com um exemplar humano com uma taxa de virilidade acentuada – ao supermercado para adquirir uma sapateira. Viva. A pequena estava docemente deitada sobre uma cama de gelo com outras amigas sossegadas, cujos olhos húmidos apreciavam companheiros marinhos defuntos. Raminhos de salsa artificiais tentavam atenuar os dentes agoniados das enguias mas as pessoas especiais e sensíveis como eu, não ficam indiferentes. Finda a compra, apressámo-nos para a minha cozinha, onde tudo iria acontecer.
O homem que pactuou comigo neste plano é uma pessoa de espírito nobre. Quando lhe pedi para matar a sapateira, esguichando vinagre nos olhos da vitima, enquanto eu fumaria um cigarro na sala, comprovou-o uma vez mais.
O “já está” soou a música para os meus ouvidos.
O tacho borbulhava e eu tinha a tenaz na mão. Tudo o que tinha de fazer era agarrar no cadáver e mergulhá-la na água fervente. Desenhava uma meia-lua do prato para o fogão quando – ah! – o animal estava vivo e a espernear (espatear?) na confusão do vapor e naquele terror optei por mergulhar o crustáceo vivo a suplicar por não finar daquela maneira.
Nos segundos que se seguiram, eu fiquei a olhar o horror dos últimos blurps-blurps-blurps, enjoada com as minhas mãos impiedosas enquanto o meu homem suspirava “huumm...jacuzzi...”.

Quantas horas de terapia é que isto me vai custar?

24 comentários:

S* disse...

Meu deus, era incapaz de matar a sapateira. pode ser um crustáceo, mas faz-me confusão só de as ver no gelo, a espernear.

Paloma disse...

posso dizer-te que ja enfiei uma sapateira viva numa panela de água fervente e o trauma demorou... hum... 30 minutos. assim que a comi, esqueci-me da tortura. =D

provocação disse...

às vezes desejava que não escrevesses tão bem :( má lady dog, má.

angela disse...

epá, uma sapateira é uma sapateira! Não é bonito de se ver, mas, a menos que sejas veg, devias ver como são os outros animais que comemos serem mortos. isso sim, seria digno :)

ab disse...

ah no filme Julia & Julie (ou ao contrário) há uma cena visual do que te aconteceu a ti, mas suponho que com lagosta

dani, a terceira disse...

depende do tempo que demorares a come-la.

Quem? disse...

Tens aí um trauma para a vida!
Como disse provocação, escreves bem que até mete nojo :)

Nervos em frangalhos disse...

Lady, este post faz-me confusão. Até ali à parte do esguichar os olhos da sapateira com vinagre a morte parecia menos agoniante do que ser mergulhada em água a ferver? Bem sei que estavas na sala a fumar mas a ideia foi tua! E estavas a tentar matá-la ou cegá-la? :)

Eugenio Martins disse...

Se achas que meter uma sapateira viva num tacho com àgua a ferver é traumatizante, não tentes matar um coelho aplicando uma pancada, com mão em forma de faca, na base da nuca do pobre animal. Normalmente os menos experientes não aplicam o golpe com a mestria necessária e são necessários varios golpes até o bicho morrer!!!! Enquanto não morre farta-se de espernear e de fazer montes de barulhos esquisitos!! Diz lá se não te sentes muito melhor agora em relação à sapateira!! :-)

Tulipa Negra disse...

É por essas e por outras que prefiro comprar os animais já mortos e devidamente esquartejados. Já sei que o processo não é agradável (para usar um eufemismo), mas pelo menos não o vejo. Sapateira, só mesmo na marisqueira...
Beijinhos

Cat disse...

Mas sabes que há bicharocos desses já convenientemente mortos e prontos a cozinhar à venda nos supermercados? Poupa-nos a trabalhos e pesos de consciência :)

Ana disse...

Mas não é só deitar vinagre e pronto...
ainda demora até a "bicha" morrer. Costumo esguichar 2 ou 3 vezes e só vai para a panela quando as patinhas já não mexem. Nem se deve por em água a ferver, para as patas não se soltarem e para o seu interior não se encher de água.

Mas, o que interessa mais, estava boa?

Ruca! disse...

para a próxima investe numa sapateira já cadáver, por causa das coisas.

Mak, o Mau disse...

Deixa estar que o marisco às vezes vinga-se, mesmo além da tumba e provoca belas intoxicações alimentares.

Não é um equilíbrio perfeito mas, ainda assim...

Kitty * disse...

Que horror, mulher. Eu acho que nem deviam vender os animais vivos. Mas isto sou eu.

Su disse...

ai mulher na suiça isso já te dava direito a pena de multa avultada por acto de crueldade.
epa... eu tava bem lixada se tivesse de me desenvencilhar pela vida... pra comer a sapateira acho que esperaria pela velhice da dita...

EK disse...

Hum.. Sempre pensei que morrendo na panela saberia melhor. Acho não, tenho a certeza.

Lilith disse...

Estou com a Kitty! Isso de as ter à venda vivas é tortura de crustáceos! É por essas e por outras que não aprecio marisco ;D

trigolimpofarinh@mparo disse...

Gostei, particularmente, do Jacuzzi...

Lu.a disse...

Bom, confesso que o comentário "Jacuzzi" fez-me dar umas valentes gargalhadas, mas meter um animal vivo em água a ferver é uma ideia que me aterroriza!
Eu acho que perdia o apetite...! :S

A Madeirense disse...

Irás necessitar de muita terapia, está visto. Mas aquele comentário do jacuzzi...lindo, mesmo lindo !

Caia disse...

Não seria mais prático e menos torturante para ambas as partes, ir à secção dos congelados em qualquer hiper? ;)

Frutinha disse...

Loooool.
E no final? soube-te só bem, aposto! loool

Missy Chatterton disse...

Eu também não era capaz de matar uma sapateira(...) arrgh, só de pensar faz-me impressão...e se elas saltarem e nos arrancarem uma mão? ou um olho?...