terça-feira, setembro 28

even a broken clock is right twice a day



E então chegou o dia mais importante da minha carreira de curiosa da máfia. Não estava nem preparada nem à espera. Almoçava tranquila e alarvemente num restaurante italiano pouco conhecido. Tão pouco conhecido que eu não o conhecia e calhei a ficar por lá à falta de melhores hipóteses dada a hora e a circunstância em questão

ai
agora vou ter de citar Ortega Y Gasset, que diz assim para quem desconhece, “eu sou eu e a minha circunstância”

Mas, dizia, estava numa esplanada tranquila numa rua sem trânsito, a orientar balofas garfadas do prato para a boca, quando vejo os olhos do homem que tem uma séria tendência a acompanhar-me numa série de coisas, a arregalarem-se. E começa todo cheio de sinais e perdigotos, bom, não vamos arrastar mais isto – olhei para a mesa do lado e eis o fantástico cenário:

um senhor nos seus sessentas, cabelo todo branco bem penteado para trás. Ao seu lado um tipo com trinta e muitos, se calhar até quarenta, menos bem vestido que o primeiro. À frente destes, outros dois, jovens muito mitras, um trazia calças de fato de treino e tudo. Uma mala em cima de uma cadeira. Não era uma linda mala brilhante de pele preta. Era uma mala que não lembrava a ninguém, feita numa espécie de patchwork de pele preta sintética. Falavam um italiano imperceptível (enfim, convenhamos que para mim todo o italiano o é) e gesticulavam à volta de um papel arrancado de um caderno quadriculado. O papel tinha contas e números de telefone.
Aguentamos umas duas horas para perceber alguma coisa (e eu confesso que estava à espera que reparassem em mim e me oferecessem trabalho).
Quem dominava a conversa e fazia piadas era o velho. No fim os dois jovens mitras levaram o papel e a mala. O velho levantou-se e trocou umas rápidas palavras atrás do balcão com um empregado brasileiro, que anuiu subserviente. Quando pagávamos a conta chegou outro homem muito chunga – assinalo os ténis reebook finais dos anos 90. Esteve meio minuto, de pé, a falar com os dois que se mantinham à mesa e foi-se embora.

Finalmente descobri um sítio de lavagem de dinheiro em Lisboa e isso devolve-me a esperança num mundo melhor, ou pelo menos, numa Europa melhor. Já não era sem tempo, começo a ver algum futuro para este país, que anda a desperdiçar recursos, com a maior porta de entrada de droga ali em baixo, a puxar mais à esquerda, como quem apanha o ferry para Tânger. Não nos falta a chungaria desenrrascada e muito esperta nem a malta mais aflita pronta a sujar as mãos por tuta e meia. Graças a deus também não nos falta o bom tempo e a gastronomia tão necessária para deliciosos negócios à mesa. E não nos esqueçamos dos presidentes da junta e outros líderes em maior escala sedentos por novas parcerias.

Eu contava-vos mais umas coisas se esta malta não tivesse a mania de furar os olhos a uma pessoa que vê demais. Saviano, lançaste outro livro? Se tivesses mais cabelo eu dizia-te como é que era.

8 comentários:

Pipoca dos Saltos Altos disse...

Refeição animada. Se o italiano era assim tão esquisito deviam ser da Sicilia...acho que perdeste uma boa oportunidade de te infiltrares nos meandros mafiosos dos tempos actuais. Deves ser como eu, gostas de ser pobre :)
Beijinhos

Claudia disse...

Uau! Acho que cumpriste um dos objectivos da minha vida - assistir a uma transação mafiosa. Que sorte! loool

Mak, o Mau disse...

Mafioso que é mafioso, usa um elástico usado para atar brócolos para juntar as suas notas de guita.

Não é invenção minha, vi um documentário na TV onde comprovavam isto. E eu acredito no que passa na TV, tirando naquela senhora estranha que fala com a outra senhora que fala com os mortos. Acho que é a Irra Palmela.

O Marquês disse...

O Saviano menciona 1 boss q foi morto em Cascais.

macaca disse...

Se te lembras do tipo de carne que cortavam e picavam no estabelecimento onde abancava o Tony e os seus amigos não voltas a pedir Bolonhesa nessa restaurante.

Rita disse...

Isso é que foi uma refeição interessante. Mas não sei como tives-te paciência para ficares tanto tempo a ouvires pessoas a falarem uma língua que não percebes patavina lol
*

Quando e como eu quiser disse...

Tiveste a tua hipótese de fazer parte da máfia italiana e deixaste passar ao lado! Uma carreira de mafiosa e que mais a passar-te em frente dos olhos.

buble disse...

Eles andam aí lol. Qual filmes qual quê, é ver aquele rapto que aconteceu no Algarve que meteu tortura à séria!

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