segunda-feira, novembro 15

idalina

Idalina tinha – sempre teve – um revólver comprado nas traseiras de um supermercado americano

(escuso de dizer sinistro supermercado americano, junto a uma estrada empoeirada, sem curvas, remoinhos rasteiros de palha, uma possível carcaça lá muito ao fundo, horizonte ondulado pelo calor, pôr-do-sol)

Teria sido uma normalíssima ida ao supermercado: leite, xarope de morango, queijo, nachos, latas de feijão em molho de tomate, tampões, café. A marca do xarope de morango tinha mudado de imagem, após vinte anos tinha de ser logo agora, Idalina ficava tão tranquila com os contornos daquela ilustração, cores esbatidas, cómicos morangos a boiar entre as letras

S T R A W B E R R Y      S Y R U P

Mas não foi isso que a irritou. Pode ter ajudado mas não foi fundamental. Idalina curvava o último corredor a contar da esquerda, frasco de café na mão, um dos ténis com os cordões desatados, a alça do sutiã preto a saltar-lhe do ombro, os olhos a semicerrarem-se em slow-motion, a garganta a afunilar numa dor de quem se está a esvaziar pela primeira vez

é que (eu explico tudo, não hão-de perder pitada)

lá ao fundo, à entrada da loja, surgia (como é possível, inacreditável) a filha da puta da Melanie F. Junior, que deveria estar reduzida a pó, dentro de um pote bege, em cima da lareira do seu irmão, aliás, agora irmã Debbie Bunny.

Idalina conheceu a transexual Debbie Bunny numa festa de aniversário de uns amigos comuns. A espalhafatosa Bunny contava uma anedota no meio do corredor, Idalina calhou a achar-lhe graça, muitas tequilas depois a noite acabava com a Idalina a ter de arcar com o frete de a levar a casa.
Debbie já se babava no sofá, Idalina estava a dar meia volta para se ir embora quando lhe aparece, numa moldura rosa bebé, a fotografia do seu marido a beijar a Melanie F. Junior.
Depois de um histérico gritinho de quem vê um fantasma, conseguiu arrancar uma explicação arrastada da bebedíssima Debbie Bunny: “é minha linda irmã e o António e agora a coitadinha da minha linda irmã, está ali, naquele horrível pote bege em cima da lareira. Foi o papá que escolheu a cor. Não é horrorosa??! Buáaaaaaa” e caiu redonda no chão para se curar de um estado de alcoolemia tão perigoso que no dia seguinte não se lembrou desta conversa.
Idalina enfia a fotografia no bolso de trás dos jeans e corre para casa para pedir explicações ao marido António.
De roupão castanho, as mãos trémulas de António pegam na moldura. Começa a chorar compulsivamente. Minutos depois consegue algum fôlego para lhe contar a história. Diz que nunca lhe falou na Melanie porque era uma grande dor e também uma grande vergonha – fora uma intensa relação que tinha acabado de uma forma trágica.

Então:

António conheceu Melanie na Universidade – ele era Professor Assistente e ela trabalhava no Bar. Foi um lindo romance até aos primeiros sete meses – depois Melanie engravidou de António, decidiram abortar, o aborto trouxe severas complicações à saúde de Melanie que necessitou de avultadas e regulares somas para recuperar a sua suposta saúde perdida (0,0002 % da verba total foi destinado a pagar uma suave sombra roxa que aplicava na curvatura concava abaixo dos olhos e um produto japonês que comprava no ebay para tornar a sua pele ainda mais pálida). A verdade verdadinha é que esta cabrona nunca esteve grávida e sempre teve uma saúde de ferro.
Apesar da porca burla a António, sempre o tratou como ninguém durante os quase dois anos de relação. António tinha-lhe um amor tão grande e era tratado com tanta competência que perdoava a cada transferência bancária os exageros de Melanie, finada abruptamente, com outras 32 pessoas, no maior acidente de metro de NY.
Mas afinal não.
Naquele supermercado, ali estava a defunta, a fingir-se de morena, em paz desde que se havia mudado para Sacramento.
(to be continued…)

11 comentários:

A Madeirense disse...

Adorei ! Fico à espera da continuação.
Vai haver luta assanhada entre mulheres ?!

provocação disse...

Isto é um Tarantino meets Almodovar que promete!!!

Daniela Gaspar disse...

quero mais! quero mais! :D

heiness disse...

eheheh! o delirio!

Ruca! disse...

essa cabra da melanie vai acabar mal!
e latas de feijão em molho de tomate, hem? há coisas que só mesmo n'américa.

o monstro disse...

cada vez gosto mais do teu blog!!!

Sarcasm Blogger disse...

Adorei cada linha ... a única coisa, é ela chamar-se Idalina ...
Ah ... e as latas de feijão em molho de tomate, não é só nos EUA, também temos ... São da Heinz, e muito, mas mesmo muito boas ... nada melhor que uma latinha dessas para preparar "o" verdadeiro English Breakfast !

R.L. disse...

Muito bom.

Anónimo disse...

"ter-lhe-ia"

Lady Oh my Dog! disse...

tinha-lhe
obrigada
:)

patti goldsmith disse...

como alguém já disse: tarantino meets almodovar. adoro! espero que alguém te compre este argumento e faça um filme com isto.

bj