domingo, novembro 28

idalina parte dois

previously on lady oh my dog!

E mesmo que António a encontrasse, não lhe faria mal nenhum, como nunca fez, ainda que suspeitando do preço e existência das consultas, dos tratamentos, das drogas para recompor um útero inflamado. Aquele quarentão cinzento amou tanto Melanie que, se a soubesse viva…
bom…a vida não seria igual. E Idalina-cheia-de-faro sabia-o melhor que ninguém.

Idalina saiu do supermercado, onde, meses antes havia comprado um revolver nas traseiras do edifício. Tinha a sensação que lhe tinha saído o Jackpot.
Idalina foi pagar a conta da electricidade ao multibanco, o talão mostrou-lhe o seu saldo contabilístico – 5162, 02 dólares. Já tinha planos para os próximos quinze dias – não tirar os óculos escuros Moschino XL de massa preta e estudar os passos de Melanie.

E quinze dias depois Idalina apurou dois factos extraordinários:

1. a julgar pela assiduidade diária à melhor clínica de hemodiálise da cidade de Sacramento, Melanie estaria (agora sim!) doente e faria tudo por um rim.
2. o dinheiro sacado a António foi bem rentabilizado – Melanie era dona de um pequeno mas requintado Hotel-Spa.

Idalina encurtou o cabelo para o tamanho mais chic (roça não roça nos ombros), pintou as unhas de bege e escolheu uma tarde solarenga para tocar à campainha de Melanie.

O seu discurso, comovido, sincero e sempre doce resumo-o aqui:

“Olá Idalina, honey, sei quem tu és. Sou casada com o António, sim esse mesmo, sei de tudo, não te preocupes, também sei que estás doente, sim senhora, muito mal. O negocio é o seguinte, minha fofa, eu dou-te o meu rim (vamos a ver se é compatível). Eu dou-te o meu rim e em troca só quero que limpes a humilhação do meu mais-que-tudo, tens de lhe pedir desculpa, assumir que estás viva, e pedir-lhe perdão. Só assim poderei ter paz e ver a honra do meu marido reconstituída, vá lá. Ah! E devolve-lhe TUDO o que lhe roubaste minha puta, que é como quem diz TUDO o que tens. E...AH! livra-te de lhe dizeres que eu te pedi isto, aliás, que me conheces! Pois nunca seria uma verdadeira redenção aos olhos do meu adorado António.”

(ela não lhe disse “minha puta”. Isto foi um encontro muito humano entre duas mulheres fragilizadas a tentar resolver a sua vida da melhor maneira)

Soltas as lágrimas de Melanie, acordaram tirar análises para ver se sempre poderia ser assim. 
Quatro dias depois, feitas as análises, o saldo contabilístico de Idalina – 2397,02 dólares. O maior investimento neste plano – a documentação médica forjada - era o seu passaporte para um maravilhoso mundo novo.

Marcada a operação chegou a altura de Melanie se apresentar a António, pedir-lhe desculpa, passar toda a sua fortuna para seu nome. António desmaiou mas recuperou os sentidos, a pulsação cardíaca, a cor, a alegria e com tudo isto uma imensa culpa por entender que ainda amava Melanie! Não contou a Idalina este encontro, nem os encontros que lhes seguiram. Não quis nem um penny de Melanie, mas esta tinha um acordo por cumprir, ajustado na sua sala de jantar, com Idalina e o lawyer Dan (fiel amigo de Idalina e maravilhoso actor) – saldo contabilístico de Idalina depois desta reunião – 542,67 dólares.

E na semana que antecedeu a operação os encontros sucediam-se, Melanie cheia de medo de não acordar na sala metálica, António cheio de medo de perder (de vez) Melanie, e vai que num tranquilo fim de tarde, enrolam-se à séria em memória dos bons velhos tempos. A cama da Melanie fazia suaves marcas na parede quando Idalina decidiu dar uso ao revolver comprado das traseiras do supermercado americano. Antes dos dois disparos certeiros, foi mais ou menos bem educada 

"olá meus amores. adeus meus amores. ora, com ou sem a vossa licença, deixem-me só colocar aqui o silenciador" 

e depois soprou o cano (não fez fumo nenhum, mas aquele gesto era uma cena que ela sempre sonhou fazer).

O funeral de António foi curto e grosso, não foi preciso comprar kleenex para ninguém.
O saldo contabilístico de Idalina é agora um pormenor sem importância.

segunda-feira, novembro 15

idalina

Idalina tinha – sempre teve – um revólver comprado nas traseiras de um supermercado americano

(escuso de dizer sinistro supermercado americano, junto a uma estrada empoeirada, sem curvas, remoinhos rasteiros de palha, uma possível carcaça lá muito ao fundo, horizonte ondulado pelo calor, pôr-do-sol)

Teria sido uma normalíssima ida ao supermercado: leite, xarope de morango, queijo, nachos, latas de feijão em molho de tomate, tampões, café. A marca do xarope de morango tinha mudado de imagem, após vinte anos tinha de ser logo agora, Idalina ficava tão tranquila com os contornos daquela ilustração, cores esbatidas, cómicos morangos a boiar entre as letras

S T R A W B E R R Y      S Y R U P

Mas não foi isso que a irritou. Pode ter ajudado mas não foi fundamental. Idalina curvava o último corredor a contar da esquerda, frasco de café na mão, um dos ténis com os cordões desatados, a alça do sutiã preto a saltar-lhe do ombro, os olhos a semicerrarem-se em slow-motion, a garganta a afunilar numa dor de quem se está a esvaziar pela primeira vez

é que (eu explico tudo, não hão-de perder pitada)

lá ao fundo, à entrada da loja, surgia (como é possível, inacreditável) a filha da puta da Melanie F. Junior, que deveria estar reduzida a pó, dentro de um pote bege, em cima da lareira do seu irmão, aliás, agora irmã Debbie Bunny.

Idalina conheceu a transexual Debbie Bunny numa festa de aniversário de uns amigos comuns. A espalhafatosa Bunny contava uma anedota no meio do corredor, Idalina calhou a achar-lhe graça, muitas tequilas depois a noite acabava com a Idalina a ter de arcar com o frete de a levar a casa.
Debbie já se babava no sofá, Idalina estava a dar meia volta para se ir embora quando lhe aparece, numa moldura rosa bebé, a fotografia do seu marido a beijar a Melanie F. Junior.
Depois de um histérico gritinho de quem vê um fantasma, conseguiu arrancar uma explicação arrastada da bebedíssima Debbie Bunny: “é minha linda irmã e o António e agora a coitadinha da minha linda irmã, está ali, naquele horrível pote bege em cima da lareira. Foi o papá que escolheu a cor. Não é horrorosa??! Buáaaaaaa” e caiu redonda no chão para se curar de um estado de alcoolemia tão perigoso que no dia seguinte não se lembrou desta conversa.
Idalina enfia a fotografia no bolso de trás dos jeans e corre para casa para pedir explicações ao marido António.
De roupão castanho, as mãos trémulas de António pegam na moldura. Começa a chorar compulsivamente. Minutos depois consegue algum fôlego para lhe contar a história. Diz que nunca lhe falou na Melanie porque era uma grande dor e também uma grande vergonha – fora uma intensa relação que tinha acabado de uma forma trágica.

Então:

António conheceu Melanie na Universidade – ele era Professor Assistente e ela trabalhava no Bar. Foi um lindo romance até aos primeiros sete meses – depois Melanie engravidou de António, decidiram abortar, o aborto trouxe severas complicações à saúde de Melanie que necessitou de avultadas e regulares somas para recuperar a sua suposta saúde perdida (0,0002 % da verba total foi destinado a pagar uma suave sombra roxa que aplicava na curvatura concava abaixo dos olhos e um produto japonês que comprava no ebay para tornar a sua pele ainda mais pálida). A verdade verdadinha é que esta cabrona nunca esteve grávida e sempre teve uma saúde de ferro.
Apesar da porca burla a António, sempre o tratou como ninguém durante os quase dois anos de relação. António tinha-lhe um amor tão grande e era tratado com tanta competência que perdoava a cada transferência bancária os exageros de Melanie, finada abruptamente, com outras 32 pessoas, no maior acidente de metro de NY.
Mas afinal não.
Naquele supermercado, ali estava a defunta, a fingir-se de morena, em paz desde que se havia mudado para Sacramento.
(to be continued…)

domingo, novembro 14

reunião de condomínio

O meu vizinho disse que ia comprar um andar novo ali para os lados do Trumps.

*burb*

só respondo à questão do copo meio cheio ou meio vazio quando me disserem do que é que se está a falar. se é vinho está quase no fundo

estou à rasquinha me auto-congratular

o 5 dias (um blogue daqueles importantes) atribuiu-me um prémio
chuuuuuuupa!!!

é de caracter não financeiro mas eu já tinha visto há algum tempo que a internet não dava lucro a ninguém
obrigada a todos os que sempre acreditaram em mim

terça-feira, novembro 9

foram as vacas ficaram os bois

estamos só a mudar umas coisas mas vai ficar tudo bem

jovem emigrante (ou que já foi ou que vai ser):

diz-me com bons modos - onde estás, que fazes e o que não fazes, o que é difícil, o que é que é mesmo bom e a comida e há lojas do cidadão? eu anda-me cá a parecer, tenho de pensar em ajeitar a minha bida, estou a ficar farta de cá estar.


quinta-feira, novembro 4

ai meu deus

eu e a minha nova cor de cabelo: duas sopeiras com ganas de ser fashion.
e não tenho gorros em casa, facto que me obriga a meter baixa amanhã.

mãe, ajuda-me. sou eu, a tua filha mais velha. *bracinhos esticados*

quarta-feira, novembro 3

se soubésseis da minha vida

ando mui apoquentada com a minha, vá, situação financeira - se é que se pode denominar de "situação financeira" a toda esta conjuntura em que estou inserida. não posso pagar um ginásio, um serviço de televisão por cabo, uns ténis daqueles que transformam o rabo naquela grande cena que toda a gente devia ostentar na rua para regalo visual. a felicidade não está nas pequenas coisas, mais experimentem viver com um pequeno saldo ou um pequeno (mãe, está descansada, não vou escrever)

mas, apesar dos pesares, lá entrei na sephora a achar que a grande solução para a manutenção da alegria quotidiana seria uma base que me estacionaria o lindo focinho entre os 20 e os 22 anos. a conselheira após cuidada análise da minha tez verbaliza o seguinte raciocínio:

"você, portanto, tem uma tonalidade a que nós costumamos chamar de amarelado"

a crise ensinou-me que tudo se pode transformar numa bênção. maneiras que finda a sílaba lado, carreguei o semblante e vim de lá cheia de amostras.

quem é quem é quem é?

quem é a bebé que está sem vontade nenhuma de escrever quem é quem é quem é? a bebé mais bonita quem é? que está com uma crise de inspiração muito grande, que não se aguenta, uma crise de inspiração muito grande.

pooois.