domingo, julho 10

depoimento n.º 1 - tânia

O meu maior sonho na altura era organizar uma festa branca à séria e foi por isso que comecei a trabalhar com o Leonardo. Por outro lado, percebi rapidamente que o maior sonho do Leonardo era constituir família e foi por isso que me empregou.
Trabalhávamos num pequeno escritório ali para os lados de Benfica – não me ficava a caminho, mas a única chatice era que aquilo já tinha sido a sede de várias micro empresas e eu quando ia abrir o correio apanhava sempre com uma carrada de correspondência que nada tinha a ver connosco. Nos primeiros tempos ainda me dava ao trabalho de contactar os CTT para fazerem chegar as cartas às devidas moradas mas depois caguei. Ia tudo para o lixo e até hoje nunca ninguém se acusou, e mesmo que se acusem, não tenho nada a ver com isso. Para todos os efeitos eu tentei. E tentei a sério, posso dizer que mais do que duas semanas. Dei o meu melhor atendendo às milhentas tarefas que tinha de cumprir, como acompanhar o Leonardo para todo o lado – reuniões, almoços, feiras ligadas à nossa área de negócio e todo o género de eventos que organizávamos.

No verão era a loucura. Tínhamos imensas bandas musicais e artistas agenciados e muitos pedidos para dar andamento, tipo, desde festas populares a coisas muito mais sérias como festas de aniversário de grandes empresas. Mas o nosso grande orgulho e de facto, o ponto alto da nossa carreira, foi ter organizado o Fest Mix 2005, com um cartaz de sonho – Quinta do Bill, Paulo Gonzo, Santamaria e Susana Félix.

Infelizmente, foi depois desse evento que tudo começou a ruir. O Leonardo veio com umas conversas de que um dos técnicos de som andava a abusar das confianças em relação a mim, e que eu também não me portava como deve de ser. Enfim. Não era bem assim. O que aconteceu na verdade foi que eu um dia trazia vestido um top com um tecido um bocado elástico meio lycra, estava a ajudar o Quim a desembrulhar uns cabos e estava uma noite super ventosa. 
Acho que todas as mulheres sabem o que acontece a nível físico quando se tem frio. 
Foi nesse sentido que o Quim me perguntou “estás com frio?” e apontou para o meu peito e, por azar, tocou-me sem querer e, por mais azar ainda, o Leonardo apareceu nesse preciso momento.

Quando acabamos os trabalhos desse memorável festival, e depois de imensas discussões, o Leonardo tomou três decisões de enfiada: pedir-me em casamento, encerrar a produtora e criar comigo uma empresa novinha em folha para recomeçar do zero: a Docilsac
Parece que ainda o estou a ouvir:
Basicamente vamos criar morangos e fazer compotas gourmet. Acredita em mim. É o negocio do futuro. – foram as palavras que o Leonardo usou para me convencer.

Apesar de não estar lá muito crente, lá mudei a minha vida toda por ele e por muitas razões. 
Primeiro, partilhava casa com uma amiga super porca, tinha de limpar a casa sozinha todas as semanas, aquilo que eu ganhava só dava para as despesas mínimas. Depois, eu sempre me imaginei a casar como deve de ser e nunca ninguém me tinha dado essa garantia. O Leonardo, de repente, era o candidato ideal – super estiloso, com a contabilidade organizada e muita vontade de se assumir como meu marido. 
Isto foi há quatro anos atrás... eu fiz trinta em Fevereiro...veja lá, tinha vinte e seis aninhos, era uma criança.
O meu casamento foi um dia impecável. Posso dizer que adorei tudo: o vestido, a comida, a banda que animou a noite, o momento pirotécnico em sincronia com alguns temas dos Vangelis. Confesso que me emocionei. Fomos mesmo felizes nesse dia.
Pronto.
Comprámos uma casa espectacular em Almeirim, no meio de uma quinta onde cultivávamos os morangos. E tudo corria mais ou menos bem tirando os dias em que ele andava mais stressado e tínhamos discussões que nem sempre acabavam bem para o meu lado. Ciumeiras dele e não sei quê. Mas não era nada do outro mundo, a vida levava-se.

Entretanto, passados mais ou menos dois anos, dois anos e dois meses...minto! Dois anos e um mês assim é que é, o Leonardo teve a infelicidade de sofrer um acidente com um tractor. O Manuel (um dos melhores técnicos agrícolas da nossa equipa na altura) estava a fazer uma manobra com o veículo e o Leonardo posicionou-se estupidamente mal e aconteceu o que aconteceu – ficou sem as duas pernas e aproveitou este acontecimento para despedir o Manuel, que, como ficou provado não teve culpa nenhuma!

Eu fiquei de rastos e sempre apoiei o meu marido como toda a gente sabe, só que a situação passado uns tempos tornou-se insustentável até porque depois eu e o Manuel fomo-nos aproximando. O Manuel estava quase a ficar com uma grande depressão com tudo isto! Emagreceu sete quilos num mês, isolou-se, já não suportava viver. Dava dó. Na verdade sempre fomos mesmo muito próximos e depois do acidente não quis perder a sua amizade e olhe, apaixonamo-nos um pelo outro. Aconteceu. Ninguém está livre destas coisas, não é? E eu não sou diferente.

Por muito que me custasse, tinha de resolver a minha vida e foi então que pedi o divórcio. O Leonardo claro que não reagiu bem, não se esperava outra coisa. Só que daí a ter-se suicidado vai uma grande diferença. Não sei, sinceramente o que lhe tenha passado pela cabeça para além da bala. Não sei e tenho pena. Agora, se a posição da arma não coincide com a versão de suicídio? Não sei, não entendo nada dessas coisas. Mas em relação ao meu historial com o Leonardo – e que Deus o tenha, sinceramente - é tudo o que tenho a declarar.

31 comentários:

Anónimo disse...

não sei o que é isto, mas muito interessante de ler !

Tolan disse...

5* :D

Anónimo disse...

Versão portuguesa do Monte dos Vendavais?

RC

Bernardo disse...

5*

Pink World Fabuloutin disse...

Nem sei o que dizer... mas não dizer nada era impossível... que historia... que Deus o guarde e que tu e o Manel sejam felizes que tragédia já tiveram bastante!!!

Jibóia Cega disse...

Isto escrito às 10h da manhã ou da manhãzinha?

Anónimo disse...

nao sei o que lhe passou na cabeça sem ser a bala? ahahaha. teve piada o reparo.

Anónimo disse...

nao sei o que lhe passou na cabeça sem ser a bala? ahahaha. teve piada o reparo.

Anónimo disse...

nao sei o que lhe passou na cabeça sem ser a bala? ahahaha. teve piada o reparo.

Anónimo disse...

lady no seu melhor!

mónica* disse...

aposto que o segundo nome da tânia é patrícia!

Herético disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Herético disse...

ai, fiquei parvo. mas fazia o mesmo que o Manuel. chama-me fraco, mimado... fazia.
Sentia-se inválido, e pelo que me pareceu por ter desde cedo querido ser teu marido, eras a única pessoa que ele via a percorrer o caminho com ele. Viu as pernas, as dele e as tuas a bazarem. Tinha perdido tudo.
Mas tbm não ias ficar com ele só por pena, não tens de te prender a ninguém e só fizeste bem.

macaca disse...

Lady in da house! :D

poeta_rural disse...

não sei o enquadramento da história, mas está aqui um bom relato, interessante de ler

Rabbit disse...

Brutal!

Anónimo disse...

do teu amigo com falta de sexo..... este post é Legendary!!!

Lótus disse...

HEIN?!

EK disse...

Porra! Com uma mente destas és capaz de ser perigosa na vida real.

Mak, o Mau disse...

Finalmente encontro alguém que bebe do mesmo ;)

Psycoo de La Cole disse...

épico!

Missy C. disse...

muito bom, x)

Lady Oh my Dog! disse...

RC,

não.

jibóia,

dormi 9 horas de sábado para domingo. foi bestial.

gente que achou que isto não era ficção,
não sei sinceramente que vos diga.
bem-vindos?

- - disse...

bestial este conto de f*das!

patrícia disse...

ahahah a parte melhor foi abrir a caixa de comentário e perceber que houve gente impressionada a pensar que era um testemunho real, na 1ª pessoa. lindo!

PS - Mónica, o que é que quer dizer com o segundo nome da Tânia ser Patrícia?

aqui mesmo disse...

Adorei a parte "não sei o que lhe passou pela cabeça sem ser a bala" Juro que me parti a rir xD

ANGIE disse...

Fantástico!

[garfanho] disse...

excelente!

Anónimo disse...

Parabéns!
Vou comprar um livro hj. Obrigada.

Anónimo disse...

acho mal... o técnico de som é q devia ter papado a gaja e não o bacano do tractor...

até porque o gajo do tractor nem era giro e moderno como o técnico de som e além disso demorava umas 4 horas a se vir, deixava a snaita da moça toda inflamada. prontes!

g.

Diana Baptista disse...

Morri a rir. :)))