terça-feira, outubro 25

1997-2011


Quando tinha quinze anos o meu pai prometeu-me que te teríamos. Estava a chover, era sábado à tarde, aborrecias uma cadela enorme com o pêlo manchado a mercúrio. Quando te peguei não acreditava que pudesse ser mesmo verdade levar-te para casa. Dei-te o primeiro banho, já agora desculpa-me isso e todas as vezes que ignorei os teus olhos fechados a sofrer a passagem do secador. Metia sempre no mais baixinho e dizia-te tem lá calma que isto é um instante, vais ficar tãaaao cheiroso meu babyyyy e a tua estóica paciência resolvia tudo. Eu fiquei histérica contigo. Eu não dormia bem. Eu passei a acordar muito mais cedo só para te ver e confirmar que ainda estavas ali. Eras feito de pregas gordas, um buda peludo com fuças achatadas, o cão mais lindo dos mais lindos. Ficaste enorme em três tempos. Tentaste passar num dos intervalos do portão, como seria normal, mas já não deu. Caíste pelo menos trinta e seis vezes quando começaste a correr. Choraste como um maricas com medo dos gatos. Roubaste um frango assado de um almoço de domingo. Essas patas tremiam quando pressentias a possibilidade de comeres mousse de chocolate. Levar-te a passear significava estalar os ombros, alongar as vertebras, andar aos esticões para paródia da vizinhança. Quando saí de casa ignorei as saudades. Quando voltava de mês a mês, os reencontros eram identicamente reproduzidos: eu fazia de conta que me escondia quando tu já me vias. Fazíamo-nos de parvos. Deitavas-te no chão, o focinho entre as patas, o teu grande corpo imóvel excepto o meio metro de cauda a levantar o pó, intermitente e caótico, a saudar-me cheio de amor, no hard feelings pela minha ausência. Tu achavas que a minha mãe era a tua mãe. Quando partiste a perna o meu irmão perguntou-me Ele também é nosso irmão, não é? Ficámos todos adultos a perceber que envelhecias mais depressa. Tivemos uma fase em que consultávamos obsessivamente a tabela de equivalências de idades. Quando fizeste dez anos eras um cinquentão. Expliquei-te a andropausa mas só querias saber do disco. O disco! Um brinde que saiu num pacote de bolachas - uma Oreo Gigante para lançar - e o teu brinquedo favorito. Também gostaste do Hot Dog que chiava, os ossos de borracha e as bolas, mas o Disco é que era mesmo bom. Ai de quem o apanhasse primeiro. Uma vez lancei-o e fiquei a rir com o teu arranque desengonçado. Esqueci-me que estava no teu circuito de corrida (150 km/h quando te atacava a alegria de apanhares um objecto atirado). Tive sorte não ter ficado entrevadinha. Era tão difícil tirar-te fotografias. A única que não está tremida pendurei na parede da sala, a única moldura que tive paciência de afixar, como um prémio de consolação. Nunca me vou esquecer que comeste uma pequena bola de algodão com betadine, para não te chateares comigo. Vai ser tão difícil chegar a casa sem ti.

sexta-feira, outubro 14

agora muita atenção à minha qualidade de vida

To-do list do fim-de-semana:

- receber o senhor dos pequenos arranjos domésticos (armários da cozinha/ maçaneta da porta/ torneira que pinga);
- receber os senhores do continente;
- receber o senhor do gás;
- resistir a chamar o senhor da pizza
- comer uma salada e reflectir sobre os meus 58kg
- torcer para que a Fanny perca a cabeça de uma vez por todas
- fantasiar com o meu futuro brilhante

paulinho


eu sou tão nova e gira e tu és o que és... porque é que fui sonhar contigo daquela maneira? 
aposto que nem Freud explica esta cabeça doente.

domingo, outubro 2

you've got mail

Boa noite Deus,

Como vais? Espero que esteja tudo bem por aí, relva viçosa como se quer e os coelhos de boa saúde. Por cá, já sabes como é. A vidinha está esquisita que é uma coisa séria.

Bom, duas coisas:

Primeiro, obrigada pelo sofá (embora o esteja a pagar em seis pesadas prestações), é tudo o que se pretendia. Isto e as cortinas fazem de mim, finalmente, uma jovem adulta que parece ter uma vida promissora. Quem aqui entrar verá de rajada a minha sofisticação e poder de compra – coisas que tenho vindo a valorizar com a idade e a leitura de revistas femininas.

E agora aquilo que tu sabes, não é? O que mais me custa são as manhãs. Acordo e apesar das rotinas dos vizinhos, o trânsito a empeçar, os horários do eléctrico, nada parece igual. Assim que abro os olhos está tudo por inventariar, o que me dá o trabalho de refazer as últimas semanas em segundos, orientar-me e prosseguir com a vida a ver se chego a horas ao trabalho.

Deves achar que não devo nada à Inteligência, mas devo, mas devo. Tanto que já entendi tudo em pouco tempo. Deves também pensar que sou daquelas pessoas que vai à Índia para pensar e só depois lhes chegam as epifanias todas. Estais enganado meu amigo. A esta que te escreve acontecem-lhe abre olhos até a dormir, ou sobretudo a dormir, tajaver?

Sossega e não batas mais na ceguinha.
A tua pacificada,
Lady