sexta-feira, dezembro 28

let's get ta ra ra ta ra ra

Está a chegar o tão esperado e único mês do ano em que vou ao ginásio depois de nos últimos meses ter comido açúcar de domingo a domingo e à desgarrada com a minha amiga imaginária (elegante, chic e altamente diabética).
Desde o final de Agosto que tento locomover-me com suavidade e o mínimo possível por forma a entrar na época fria com um perímetro abdominal razoável pois o frio faz-me triste e birrenta e com um quadro depressivo de dar dez a um à Sónia Brazão.
Por outro lado estar gorda causa-me alguma tristeza pelo que isto é uma pescadinha de rabo na boca (neste caso a pescada tem grandes dificuldades em abocanhar a sua zona traseira).
Portanto hoje fui ao ginásio com o intuito de dar início aos meus treinos que se pretendem regulares e consistentes durante toda a vida mas que, se tudo correr conforme o previsto, apenas acontecerão assim na primeira semana e meia. Findo esse período irei encontrar todos os motivos para não ir.
 A isto se chama auto conhecimento, irmã gémea da auto estima e por isso neste ponto nada tenho a trabalhar no ginásio (mais um benefício riscado na lista de benefícios de ir ao ginásio, no final de Janeiro serão todos inválidos, juro).
O dia de hoje foi marcado por uma avaliação inicial em que fui chamada de FALSA MAGRA o que desde já me deu mais uma razão para abandonar o plano severo que me foi traçado pois ser magra é o que realmente importa. E se acham que sou falsa, quem diz é quem é.
Enfim, adorava saber porque repito todos os anos esta promessa condenada ao fracasso.

sexta-feira, dezembro 21

terça-feira, dezembro 18

não oferecer (edição 2012)

fiz o favor de vos alertar em 2007, em 2008 e em 2010.
neste ano de parcos recursos tenham por favor cuidados redobrados.
não entrem nas lojas das estações de metro, nas lojas esotéricas, não batam com os olhinhos nos corners de cosmética duvidosa, fujam das montras top ten e lembrem-se que de cada vez que uma fashion blogger faz um post sobre uggs a Coco Chanel dá uma volta no caixão.

Coisas com golfinhos: no passado não foi fixe, não é fixe, nunca vai ser fixe.

Retro em mau, não.

Todos temos uma conhecida dada aos trabalhos manuais que aproveita esta altura tão sensível para vender os seus "miminhos". NÃO AJUDES A PAGAR ANTIDEPRESSIVOS.

Que horror.




Socas, uggs e litas: o género de calçado que só é útil na medida em que permite fazer uma triagem express das pessoas que valem a pena.
Enfim. Guardem esse euro para a terapia de que tanto precisam.
 peça infalível destruidora de qualquer relação.

Estamos muito enjoadas desta merda.
Só e só se o plano for fumar erva depois do jantar e jogar ao "abre o livro ao calhas e lê um parágrafo".

quarta-feira, dezembro 5

terça-feira, novembro 13

Estou de óculos de sol e fones nos ouvidos, demasiado distraída nos pensamentos da minha cabeça doente quando sinto um toque no ombro. É uma turista que precisa de explicações.
Devolvo uma expressão de horror e pânico como se ela tivesse o rosto encharcado sangue e aquele dedo um alfinete não no ombro mas no meio do e arranco os fones e os óculos da cara, tudo ao mesmo tempo, evidenciando a natural vocação para a desarticulação.
A sério. Quando é que eu aprendo que tirar os óculos não nos faz ouvir melhor?

segunda-feira, novembro 12

razões para merecer o céu

O Lord Cão (nome provisório. ou não.) é um homem com uma excepcional visão da vida.
Há conceitos que o seu cérebro simplesmente não assimila, não por incapacidade ou defeito mas por uma extraordinária aptidão desenvolvida de reduzir a vida ao essencial.
O Lord Cão é um essencialista.
Posso referir exemplos práticos e concretos para ilustrar com rigor esta matéria.

Quantos homens veem pornografia? Todos.
Quantos homens preferem o visionamento desse subgénero a sós, no silêncio do quarto, em frente ao portátil? Todos.
Quantos homens preferem esconder esse facto das suas namoradas? A maioria.

Como é que o Lord Cão funciona? O Lord Cão tem uma vaga ideia do que é o bom-senso. Mas não sabe bem se é o nome de uma sobremesa ou de uma localidade do interior. Sensibilidade e romantismo desconhece totalmente.
Portanto, quando o Lord Cão quer assistir ao vídeo pornográfico não se impede de declarar a sua futura ação enquanto arreganha os lábios, mostra toda a dentição, esfrega as mãozinhas de contentamento e dá três pulos de gaúdio.
De seguida completa a sua declaração com informações rigorosas e altamente imagéticas sobre os conteúdos a que vai assistir.
Não contente, o Lord Cão não se equipa de um recatado tablet para dar seguimento ao seu ensejo. Lord Cão projeta na parede da sala a pornografia a que deseja assistir e comenta com entusiasmo a fisionomia das actrizes e demais truques da profissão.
No pleno uso da sua deselegância e capacidade de ignorar que está numa relação afectiva ("romântica" seria uma grande incorreção) comigo, Lord Cão chega a gritar da sala
"EEISH CA GANDA PINTELHEIRA! HEHEHE!"
Depois de todo este processo, Lord Cão não vê mal nenhum em me pedir para lhe fazer umas panquecas "com muita manteiga e maple syrup". Quanto já antes me havia pedido uma mini.

Espero com grande ansiedade pelo dia em que Lord Cão enriqueça e eu possa sem qualquer dúvida dizer que sim, que vale a pena.


foto que documenta a situação

assunto sério

Preparava-me para vos contar um episódio que envolve o macho que se apropriou do meu bem-estar (e mo devolve, aleatoriamente, ora em doses omeopáticas ora em ternurentas avalanches - é tão bonito, o amor, mas não desejo as angústias ao meu pior inimigo) quando me apercebi da enorme lacuna que é não ter uma alcunha que o designe.
Por esses blogues fora pululam os MQT, os Mamen, as Plafts. E eu?
Onde é que eu fico no meio dessa ÉPICA história das alcunhas para namorados?

Estou oficialmente à procura de um nome para a Criatura. Talvez Criatura. Não sei.

PS: No meu trabalho de pesquisa estou a fazer uso de diversas ferramentas, entre as quais o Google. Sinto-me na missão de partilhar convosco dois links que talvez vos sejam úteis.

http://br.answers.yahoo.com/question/index?qid=20081002132301AAA7Iyv
http://anossavida.pt/forum/como-que-vossos-namoradosnoivosmaridos-vos-tratam-apelidos

nem pintadas a ouro, obrigada.


sábado, novembro 10

os meus vizinhos odeiam o fim-de-semana



Vive a vida, como uma festa,
Sob o vento da floresta.
Lua navegante, segue o teu rumo.
Vai em ti a paixão
Do meu destino.
Com o teu poder e a tiara,
E com o meu gato Luna
Vamos vencer as batalhas,
Dessas causas esquecidas.
Luna, Luna, conto contigo
Nestas lutas Contra o inimigo
Monstros, sonhos são
Lendas ou imaginação
Luna, Luna, vem
Lutar pelo bem.

terça-feira, outubro 23

querida funcionária da sephora,

desculpa ter-me rido como uma doente mental quando pedi um tónico sem álcool.
estes zoom out mentais ainda vão dar cabo de mim.

querida lei da compensação,

O B R I G A D A

(mas ainda assim falta muito para compensar os diversos itens a que tenho sido sujeita nomeadamente faltas de educação, impostos, funerais, péssimo serviço de tv, etc.)

segunda-feira, outubro 1

cara intimissimi,


ganhaste.
quero ser italiana, quero comprar todas as vossas peças, quero verificar COM URGÊNCIA a densidade das mamas das vossas modelos.

segunda-feira, setembro 24

outono 2012

agora livrem-se de dizer cor de vinho em vez de burgundy se não querem esfrangalhar o cóccix na inevitável queda de escalão social.

coaching

as fotos de perfil que te devolverão o sentido da vida acedem-se através dos seguintes endereços:

https://www.facebook.com/joseluispeixoto
http://www.facebook.com/davidfonsecamusic



sexta-feira, setembro 14

isto igualou-se à minha idade mental. ontem.


chei't'oubir

parem lá com esses anúncios repetidos de isso de gostarem de pessoas determinadas, "com garra", que lutam, que são super-homens e super-mulheres tal e qual como vocês que acordam às cinco da manhã para escreverem livros e se deitam às duas da manhã porque entretanto trabalharam quinze horas, correram dez quilómetros, fizeram uma surpresa gigante ao vosso companheiro (a), mais um vôo intercontinental e no final do dia ainda deu para se bezuntarem com quantos cremes diferentes e especificos apanharam à frente para as vossas inexistentes mazelas (mas é como dizem, "mais vale prevenir...")

e mais a alegria de viver, a esperança constante e renovada a cada post, parece que vão chorar de felicidade a cada palavra escrita, chega a ser fácil imaginar as vossas figuras patéticas agarradas à tecnologia que vos permite vir para aqui armados em gurus espirituais, pastores da IURD, com o beicinho a tremer emocionado porque é uma bênção isto tudo mas agora têm de ir ali escolher um carro/ botas/ relógio/ perfume/ etctetctetc ou ir ali fazer uma massagem/ filho/ unhas de gel/ bolo com corante rosado/ banhos em leite de cabra e depois por tudo no instagram e depois por tudo no facebook e depois por tudo no blog e depois começar o processo de novo directamente a partir da wishlist virtual montada no pinterest ou numa aplicação de smartphone

já chega e isso já está em todo o lado naquelas frases com uma imagem desbotada atrás, na publicidade épico-optimista dos tampões e dos telemóveis, nas peças "jornalísticas" que impõem a felicidade e o sucesso que, segundo eles e vocês, não se atinge sem uma performance sexual cheia de truques, um dia organizado ao minuto, a depilação em dia, um gosto especial pelo fitness, a competitividade como mantra e ai de quem não faça uma escapadinha de dois em dois meses.

vá lá.
não me façam esses olhos de merda.

quinta-feira, setembro 13

fno report

eis um estudo elaborado após uma intensa passagem em veículo motorizado nas principais artérias do evento:

95% dos visitantes envergavam calças estapadas e/ou saias compridas
80% dos visitantes optaram por peças com tachas
75% dos visitantes carregavam ao pescoço um colar statement
0,00001% dos visitantes ostentavam um estilo único e um carisma muito próprio
99,99999% dos visitantes tem uma visão superficial e redutora da arte em geral e do design de moda em particular

duas notas finais:

1. uma percentagem significativa mas não determinada é a favor da utilização de peças dois números abaixo do seu conforto

2. a maioria não vai à manifestação no sábado porque não há distribuição de goodies



sexta-feira, agosto 31

já agora, as minhas férias.

Eu mato-me se perguntarem "compraste este casaco na Zara?!?!" 
É uma cena do Padrinho III, está bem alminha?
apontem aí no vosso caderninho que, quando integrar a maçonaria, o meu nome de código será florbela queirós.
podem ir, outra vez, obrigada.

sábado, julho 21

Cara senhora da limpeza,
Caro técnico de telecomunicações,
Caro técnico do serviço de tv,
Caros senhores do serviço de entregas do continente,
Caros senhores da worten que fizeram a entrega do frigorífico,

o napperon que disponho em cima da televisão é uma escolha irónica.

sábado, junho 16

como é bom estar em casa

Avó olha para o ecrã televisivo, reconhece de imediato a figura do João Baião, aguça o olhar, concentra os lábios tensos numa espécie de beijinho rancoroso enquanto estuda os movimentos do apresentador e lhe ignora as piadas. Transforma-se num lince em observação. Após quatro minutos e meio declara:
"Este também parece ser um grande putanheiro."

terça-feira, maio 15

oláaaaaaaa!! eu sei que já não está aqui quase ninguém

mas alguém já foi a Budapeste?
O que é que eu não posso mesmo deixar de ver/ comer/ fazer?
Já comecei a minha lista com este item.

sábado, abril 14

um fio de sangue pelo queixinho abaixo


Enfim.
Saída do dentista, ainda sob o efeito da dupla anestesia (que peço sempre já que o meu coração aguenta), optei por ir almoçar à zona de restauração de um movimentado centro comercial. Foi uma luta muito pouco vencida tentar manter a salada dentro da boca e ao mesmo tempo não alimentar-me dos lábios que só me pareciam o mais tenro dos bifes.
Apesar dos pesares, estou em condições de afirmar que foi uma experiência enriquecedora. Ajuda-nos a saber, por exemplo, como os demais olham para a diferença – com nojo e comiseração.

domingo, março 18

quinta-feira, março 15

onde comprar antiaglomerante (E551)?


Andei uma vida inteira enganada a achar que, para a confecção do galão, bastaria o leite, o café e o açúcar. Felizmente encontrei a lista de ingredientes necessários para o apuramento de um galão original:

- açúcar
- xarope de glucose
- café solúvel (17,2%)
- gordura vegetal hidrogenada
- reguladores de acidez (E340ii, E451i, E452i, E331iii)
- proteínas lácteas
- sal
- emulsionantes (E471, E472e)
- aromas
- antiaglomerante (E551)

Acrescentar leite.

quarta-feira, março 7

com estes é que eu não sonho ou o c

estou muito constipada mas felizmente a capa do próximo ípsilon está tão bonita.
a febre dá-me uns calores e arrepios ao mesmo tempo.

terça-feira, março 6

rolling eyes

sonhei que estava numa fila interminável na segurança social e que o bronco do David Fonseca estava atrás de mim a apalpar-me o rabo.

o meu inconsciente é tão dispensável que me angustia ter de viver com ele para sempre.

sexta-feira, fevereiro 24

o meu ódio é tão difícil de disfarçar mas se eu escrever isto talvez fique melhor

desconsidero profundamente (ou tenho nojo de) pessoas lovely tipo a Mallu Magalhães.
E também todas as outras que põem nos seus respectivos murais do facebook, vídeos da Mallu com o apontamento "a adorável Mallu <3 <3 <3 <3".

(obrigada por terem lido isto, vocês são o meu caixote do lixo emocional favorito de sempre! <3)

sábado, fevereiro 11

-.-


É verdade que sou conhecida por ser uma excelente pessoa. Sou daquelas criaturas que, ao ser tema de conversa, a referência à minha bondade é incontornável (mas de quem é que estás a falar? Ah! Já sei, já sei. Por acaso ela é impecável, muito boa gente.)
Agora,
como é que isto foi parar aos ouvidos da TAP?
Não sei.

(flashback – ponham a imagem que têm na vossa cabeça a ondular)

Corria a época natalícia de 2011, quando eu e a criança que nasceu depois de mim, roubando para sempre a atenção exclusiva que eu sei que merecia dos meus pais, concertámos esforços para comprar uma viagem aos nossos progenitores (golpe genial que dará retorno durante os próximos anos).

Ao adquirir a viagem, esta que vos fala, deu conta – e sabe deus, como deu – do débito do valor da viagem na sua conta bancária.
Um mês depois, os anões que trabalham na cave escura que será a contabilidade da TAP, estavam a conversar na sua voz fininha “olha lá! Aquela chavala que comprou uma viagem aos pais já pagou? Ela deve ser cheia do papel pa ‘tar com essas cenas. Butes sacar outra vez? Ya mens.”

Deste modo foi extraído, um mês após a compra, a mesma quantia.
Mas a diversão na cave escura da TAP continua. Dois dias depois, devolveram-me tudo – o meu primeiro pagamento e a segunda indevida cobrança.
Eu só sei desta história porque estava a consultar os movimentos no net banking, ninguém me perguntou por contas e ainda estou para saber como puderam fazer o segundo débito sem a minha autorização. Tenho os bilhetes comprados e impressos e se me devolveram o dinheiro eu não dei por isso porque sou rica.

Mas sou boa pessoa. Tanto que liguei para a TAP:

-       Boa tarde. Passa-se istoeistoeisto, maneiras que tenho dinheiro a mais...
-       Pois.
-       E agora? Vão cobrar outra vez?
-       Pois.
-       ahmmm... Vão cobrar outra vez?
-       Olhe não sei. Mande o seu extrato para analisarmos.
-       Desculpe?
-       Mande o extrato bancário e vemos o que podemos fazer.
-       !!Eishhhh que país de merdaaaaaa!!
-       Posso ajudá-la em mais alguma questão?
-       Obrigada, boa tarde.


Com que então tenho de enviar o meu extrato? Destacar os movimentos que interessam, escrever a história, ver se com jeitinho me cobram o dinheiro e pedir desculpa pela confusão.

Vou já preparar um copo de leite morninho e fazer isto como deve de ser. É Sábado, também não tenho mais nada para fazer e os senhores da TAP devem estar muito atarefados! 
Até já, malta!

domingo, fevereiro 5

faça como eu, passe um fim-de-semana sentindo-se uma super mulher:


nível 1. - super mulher

1. repare um autoclismo danificado
2. inicie-se na depilação a laser
3. confecione um bolo de banana a olho
4. proceda à manicura caseira com um corta cutículas enferrujado

nível 2. super mulher MASTER

1. coloque losangos de espelhos autocolantes numa parede sem quaisquer marcações prévias
2. limpe distraidamente uma tomada elétrica com um pano bem embebido em água

nível 3. super mulher SUPER MASTER

Ponto único - ao ligar o seu aparelho televisivo, certifique-se que a única emissão disponível é um aviso da TDT.

segunda-feira, janeiro 23

metodologias

A forma mais prudente de apresentar o meu namorado aos meus pais será, previamente, e durante um prazo nunca inferior a 24 meses, alimentar a suspeita de poder ser lésbica.

domingo, janeiro 15

cubo de rubik

Fiquei no 127º lugar!
Nunca tinha ficado numa posição tão má, tirando aquela vez no Renault Clio do meu ex-namorado.
Deixo aqui o texto porque não tenho onde o guardar.

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A Gabriela ficou louca. Não me reconhece. Acha que não sou sua sobrinha, tenho quase a certeza que me confunde com a última comercial da Avon que lhe bateu à porta. Já me disse duas vezes “Não quero, já lhe disse que não quero, ainda na semana passada lhe dei mais de oito euros e a embalagem dizia que era uma amostra e as amostras não se vendem, não me tome por parva que a parva aqui é você, ouviu?”.

Só come pão com manteiga. Não aceita nada mais nada menos que isso. Nunca mais se preocupou com nada, muito menos com as migalhas num degradê pegado sobre o peito a chegar à curva da barriga.

Quando não acha que sou revendedora de cosméticos não me acha nada. Pergunto-lhe “então como vai isso” e tzt! começa o curto-circuito, os olhos logo a boiar na gravidade especifica dos senis, aquela película cinzenta a assustar as crianças. Rodam, param um bocadinho à esquerda, voltam para baixo, concentram-se no pão com manteiga, rodam outra vez, estacionam em ponto morto, desfocam. Qualquer coisa aleatória pode impulsionar um novo regresso. O gato a passar, um anúncio na TV, um borboto que sobressai no casaco de alguém e ei-la: Gabriela regressa das catacumbas de sabe-se lá onde para dizer disparates.

A sua cabeça ficou um cubo de Rubik greytone.

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O Hélder é Engenheiro Civil em Angola. Em Portugal não tenho a certeza, mas em Angola, desde 1998, logo depois da Expo. Está cheio de papel e não tem filhos, o que faz de mim a sua herdeira mais certa. Estou-me pouco fodendo para ele e ele para mim. Casou-se com a Gabriela quando tinha vinte e cinco anos, que é a idade em que nenhum homem devia casar ou, a ter mesmo de ser, pagar um imposto extraordinário ao Estado. Mas no caso do Hélder não interessa a idade. Vem cá de férias de três em três meses para esfregar na cara de todos que a vida lhe é fabulosa, o bronze não se despega da pele, o cabelo pintado num castanho ridículo, cachucho pacóvio num lustre mesquinho, cutículas hidratadas. É aquele tipo de filho da puta que quando é informado que a mulher está nas urgências, pergunta “E quê? É preciso eu ir?” com um lamiré de terror na voz a ver se o seu egoísmo me põe na ordem. O que vale é que estes desgraçados acabam sempre sozinhos, a espernear como um salmão gordo fora de água.

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Tenho a roupa numa orgia espalhada em três montes e uma lista de dúvidas a entupir o juízo, que, devo dizer, é pouco e tende a ficar rarefeito à medida que o tempo passa. Estava tão convencida que isto com a idade ia ao sítio mas não é verdade. Ainda bem que me amas. Se puderes, traz uma latinha daquelas redondas de goiabada. Trazes?

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Gabriela, o que é isso agora? Ai. Estamos mal. Vamos lá a vestir a camisola. Não queremos ver essas mamas de fora. A mostrá-las, só ao senhor Manel. O senhor Manel. Ó. O do café. Ok, esquece, vamos lá vestir a camisola, anda cá minha princesa das arábias. Ouviste? Tia, anda cá. Sai daí, ANDA CÁ. Chega aqui ao pé de mim, vamos vestir-te, a camisola é tão bonita e fica-te tão bem. Vestimos a camisola e depois vamos à rua buscar pão quentinho, hã? Ah, jeitosa. Temos de cortar estas unhas que ainda arranhas as costas de alguém.
O meu namorado vem amanhã, Tia. Sabes quem é o meu namorado? Está bem, não faz mal.

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Às vezes acho que nunca me vais compreender e é nesses momentos que oiço as músicas erradas de propósito. Não te vou repetir os assuntos de sempre, já te estendi as mãos cheias dos meus afectos podres e como diz o outro, “que fazer?”. Amanhã vou ao supermercado comprar açúcar mascavado para a tarte de maçã. A massa fica meio caramelizada. Já não consigo dizer caramelizada sem pensar em ti.

Desculpa não estar tão bem como estava quando me conheceste, a cabeça empolada de esperança, os gestos lentos e todas as palavras bem enroladas na língua para que te soassem melhor, a dicção a convencer-te ainda mais um bocadinho de que eu era perfeita para ti. A tua mãe telefonou-me a semana passada a pedir a receita da tarte. Acho deprimente duas mulheres tão empenhadas em fazer-te feliz para agora isto. Se não quiseres voltar é contigo, mas manda-me ao menos a goiabada pelo correio.

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Gabriela, amor, hoje é dia, Deus é pai e logo por sorte temos uma tarte de maçã morna. Tia, uma vez, devia ter dez ou onze anos, roubei-te dois contos que tinhas na carteira. Desculpa-me. Lembrei-me disto ontem à noite, já estavas a dormir.

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Ainda paraliso a achar que a realidade habitual retoma dentro de segundos. Fico quieta, sustenho a respiração, olho desolada para as peças espalhadas no chão. Que o caos esteja connosco graças ao inferno que se tornou a minha vida. Logo agora que estava tudo a correr tão bem. Há tantos anos que um corte de cabelo não me assentava assim. Acertei também com o tom da base. Tenho a minha situação fiscal regularizada. Passei a vir-me muito mais vezes. Deixei de roer as unhas. O meu francês finalmente bom. Uma folha de cálculo Excel artilhada de fórmulas mágicas.
Cheguei a ter dias tão bons que só precisava de botões e tudo acontecia. O botão do alarme de manhã, os botões do telemóvel, os botões da camisa fechados, os botões das calças abertos, os botões do multibanco, os botões do computador, o botão da tua campainha.

E agora tudo me custa, até as costelas me doem. Não consigo acreditar que me deixaste. E quando me convenço que já não gostas de mim, daí o safanão nas ventas, volto à casa de partida, costelas doridas só de inspirar. Eu que sempre fui tão boazinha para ti. Porque é que deixaste de gostar de mim? O que é que eu disse? Estávamos a jantar e de repente deste com as minhas olheiras? Eu sei que falei vezes de mais das histórias da minha tia.

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Tio Hélder, escrevo-lhe estas linhas basicamente para o mandar foder mais à merda dos seus oitocentos euros mensais. Até mudei o NIB.