domingo, janeiro 15

cubo de rubik

Fiquei no 127º lugar!
Nunca tinha ficado numa posição tão má, tirando aquela vez no Renault Clio do meu ex-namorado.
Deixo aqui o texto porque não tenho onde o guardar.

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A Gabriela ficou louca. Não me reconhece. Acha que não sou sua sobrinha, tenho quase a certeza que me confunde com a última comercial da Avon que lhe bateu à porta. Já me disse duas vezes “Não quero, já lhe disse que não quero, ainda na semana passada lhe dei mais de oito euros e a embalagem dizia que era uma amostra e as amostras não se vendem, não me tome por parva que a parva aqui é você, ouviu?”.

Só come pão com manteiga. Não aceita nada mais nada menos que isso. Nunca mais se preocupou com nada, muito menos com as migalhas num degradê pegado sobre o peito a chegar à curva da barriga.

Quando não acha que sou revendedora de cosméticos não me acha nada. Pergunto-lhe “então como vai isso” e tzt! começa o curto-circuito, os olhos logo a boiar na gravidade especifica dos senis, aquela película cinzenta a assustar as crianças. Rodam, param um bocadinho à esquerda, voltam para baixo, concentram-se no pão com manteiga, rodam outra vez, estacionam em ponto morto, desfocam. Qualquer coisa aleatória pode impulsionar um novo regresso. O gato a passar, um anúncio na TV, um borboto que sobressai no casaco de alguém e ei-la: Gabriela regressa das catacumbas de sabe-se lá onde para dizer disparates.

A sua cabeça ficou um cubo de Rubik greytone.

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O Hélder é Engenheiro Civil em Angola. Em Portugal não tenho a certeza, mas em Angola, desde 1998, logo depois da Expo. Está cheio de papel e não tem filhos, o que faz de mim a sua herdeira mais certa. Estou-me pouco fodendo para ele e ele para mim. Casou-se com a Gabriela quando tinha vinte e cinco anos, que é a idade em que nenhum homem devia casar ou, a ter mesmo de ser, pagar um imposto extraordinário ao Estado. Mas no caso do Hélder não interessa a idade. Vem cá de férias de três em três meses para esfregar na cara de todos que a vida lhe é fabulosa, o bronze não se despega da pele, o cabelo pintado num castanho ridículo, cachucho pacóvio num lustre mesquinho, cutículas hidratadas. É aquele tipo de filho da puta que quando é informado que a mulher está nas urgências, pergunta “E quê? É preciso eu ir?” com um lamiré de terror na voz a ver se o seu egoísmo me põe na ordem. O que vale é que estes desgraçados acabam sempre sozinhos, a espernear como um salmão gordo fora de água.

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Tenho a roupa numa orgia espalhada em três montes e uma lista de dúvidas a entupir o juízo, que, devo dizer, é pouco e tende a ficar rarefeito à medida que o tempo passa. Estava tão convencida que isto com a idade ia ao sítio mas não é verdade. Ainda bem que me amas. Se puderes, traz uma latinha daquelas redondas de goiabada. Trazes?

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Gabriela, o que é isso agora? Ai. Estamos mal. Vamos lá a vestir a camisola. Não queremos ver essas mamas de fora. A mostrá-las, só ao senhor Manel. O senhor Manel. Ó. O do café. Ok, esquece, vamos lá vestir a camisola, anda cá minha princesa das arábias. Ouviste? Tia, anda cá. Sai daí, ANDA CÁ. Chega aqui ao pé de mim, vamos vestir-te, a camisola é tão bonita e fica-te tão bem. Vestimos a camisola e depois vamos à rua buscar pão quentinho, hã? Ah, jeitosa. Temos de cortar estas unhas que ainda arranhas as costas de alguém.
O meu namorado vem amanhã, Tia. Sabes quem é o meu namorado? Está bem, não faz mal.

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Às vezes acho que nunca me vais compreender e é nesses momentos que oiço as músicas erradas de propósito. Não te vou repetir os assuntos de sempre, já te estendi as mãos cheias dos meus afectos podres e como diz o outro, “que fazer?”. Amanhã vou ao supermercado comprar açúcar mascavado para a tarte de maçã. A massa fica meio caramelizada. Já não consigo dizer caramelizada sem pensar em ti.

Desculpa não estar tão bem como estava quando me conheceste, a cabeça empolada de esperança, os gestos lentos e todas as palavras bem enroladas na língua para que te soassem melhor, a dicção a convencer-te ainda mais um bocadinho de que eu era perfeita para ti. A tua mãe telefonou-me a semana passada a pedir a receita da tarte. Acho deprimente duas mulheres tão empenhadas em fazer-te feliz para agora isto. Se não quiseres voltar é contigo, mas manda-me ao menos a goiabada pelo correio.

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Gabriela, amor, hoje é dia, Deus é pai e logo por sorte temos uma tarte de maçã morna. Tia, uma vez, devia ter dez ou onze anos, roubei-te dois contos que tinhas na carteira. Desculpa-me. Lembrei-me disto ontem à noite, já estavas a dormir.

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Ainda paraliso a achar que a realidade habitual retoma dentro de segundos. Fico quieta, sustenho a respiração, olho desolada para as peças espalhadas no chão. Que o caos esteja connosco graças ao inferno que se tornou a minha vida. Logo agora que estava tudo a correr tão bem. Há tantos anos que um corte de cabelo não me assentava assim. Acertei também com o tom da base. Tenho a minha situação fiscal regularizada. Passei a vir-me muito mais vezes. Deixei de roer as unhas. O meu francês finalmente bom. Uma folha de cálculo Excel artilhada de fórmulas mágicas.
Cheguei a ter dias tão bons que só precisava de botões e tudo acontecia. O botão do alarme de manhã, os botões do telemóvel, os botões da camisa fechados, os botões das calças abertos, os botões do multibanco, os botões do computador, o botão da tua campainha.

E agora tudo me custa, até as costelas me doem. Não consigo acreditar que me deixaste. E quando me convenço que já não gostas de mim, daí o safanão nas ventas, volto à casa de partida, costelas doridas só de inspirar. Eu que sempre fui tão boazinha para ti. Porque é que deixaste de gostar de mim? O que é que eu disse? Estávamos a jantar e de repente deste com as minhas olheiras? Eu sei que falei vezes de mais das histórias da minha tia.

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Tio Hélder, escrevo-lhe estas linhas basicamente para o mandar foder mais à merda dos seus oitocentos euros mensais. Até mudei o NIB.

9 comentários:

S. disse...

adorei o texto!
S.

Anónimo disse...

só pra informar: está bom. talvez não esteja optimo, mas isso de ser optimo é uma grande merda. de qualquer modo, ficou a informação.

g.

Juanna disse...

Dá para mudar o nib??

Anónimo disse...

@Juanna: Dá, se trocares de conta bancária!!

Maria Flausina disse...

Gostei muito.

a.i. disse...

Também gostei muito, mesmo sendo um texto triste por se perceber que não é totalmente ficção, ou talvez por isso mesmo.

JCM disse...

Os três primeiros textos do ranking são inacreditavelmente maus.

O primeiro é tipo o Despertar da Mente em mau, onde toda a gente larga coisas. O segundo, quando o narrador questiona se um cheiro seria alecrim ou alfazema já estamos a vomitar na boca. O terceiro pára-se de ler à terceira linha, quando diz que o texto "é um beijo informático para a minha filha...".

Tolan disse...

Isto muito bom. Tens estilo, é uma pena as mulheres nascerem sem o drive masculino para a competição e perderem demasiado tempo com homens e com espelhos na mala, isto é bom e gostava que escrevesses 300 páginas disto.

Anónimo disse...

concordo com o tolan, eu lia bem trezentas páginas assim, neste passo, neste ritmo, dentro desta cabeça. mesmo bom.