segunda-feira, janeiro 23

metodologias

A forma mais prudente de apresentar o meu namorado aos meus pais será, previamente, e durante um prazo nunca inferior a 24 meses, alimentar a suspeita de poder ser lésbica.

domingo, janeiro 15

cubo de rubik

Fiquei no 127º lugar!
Nunca tinha ficado numa posição tão má, tirando aquela vez no Renault Clio do meu ex-namorado.
Deixo aqui o texto porque não tenho onde o guardar.

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A Gabriela ficou louca. Não me reconhece. Acha que não sou sua sobrinha, tenho quase a certeza que me confunde com a última comercial da Avon que lhe bateu à porta. Já me disse duas vezes “Não quero, já lhe disse que não quero, ainda na semana passada lhe dei mais de oito euros e a embalagem dizia que era uma amostra e as amostras não se vendem, não me tome por parva que a parva aqui é você, ouviu?”.

Só come pão com manteiga. Não aceita nada mais nada menos que isso. Nunca mais se preocupou com nada, muito menos com as migalhas num degradê pegado sobre o peito a chegar à curva da barriga.

Quando não acha que sou revendedora de cosméticos não me acha nada. Pergunto-lhe “então como vai isso” e tzt! começa o curto-circuito, os olhos logo a boiar na gravidade especifica dos senis, aquela película cinzenta a assustar as crianças. Rodam, param um bocadinho à esquerda, voltam para baixo, concentram-se no pão com manteiga, rodam outra vez, estacionam em ponto morto, desfocam. Qualquer coisa aleatória pode impulsionar um novo regresso. O gato a passar, um anúncio na TV, um borboto que sobressai no casaco de alguém e ei-la: Gabriela regressa das catacumbas de sabe-se lá onde para dizer disparates.

A sua cabeça ficou um cubo de Rubik greytone.

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O Hélder é Engenheiro Civil em Angola. Em Portugal não tenho a certeza, mas em Angola, desde 1998, logo depois da Expo. Está cheio de papel e não tem filhos, o que faz de mim a sua herdeira mais certa. Estou-me pouco fodendo para ele e ele para mim. Casou-se com a Gabriela quando tinha vinte e cinco anos, que é a idade em que nenhum homem devia casar ou, a ter mesmo de ser, pagar um imposto extraordinário ao Estado. Mas no caso do Hélder não interessa a idade. Vem cá de férias de três em três meses para esfregar na cara de todos que a vida lhe é fabulosa, o bronze não se despega da pele, o cabelo pintado num castanho ridículo, cachucho pacóvio num lustre mesquinho, cutículas hidratadas. É aquele tipo de filho da puta que quando é informado que a mulher está nas urgências, pergunta “E quê? É preciso eu ir?” com um lamiré de terror na voz a ver se o seu egoísmo me põe na ordem. O que vale é que estes desgraçados acabam sempre sozinhos, a espernear como um salmão gordo fora de água.

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Tenho a roupa numa orgia espalhada em três montes e uma lista de dúvidas a entupir o juízo, que, devo dizer, é pouco e tende a ficar rarefeito à medida que o tempo passa. Estava tão convencida que isto com a idade ia ao sítio mas não é verdade. Ainda bem que me amas. Se puderes, traz uma latinha daquelas redondas de goiabada. Trazes?

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Gabriela, o que é isso agora? Ai. Estamos mal. Vamos lá a vestir a camisola. Não queremos ver essas mamas de fora. A mostrá-las, só ao senhor Manel. O senhor Manel. Ó. O do café. Ok, esquece, vamos lá vestir a camisola, anda cá minha princesa das arábias. Ouviste? Tia, anda cá. Sai daí, ANDA CÁ. Chega aqui ao pé de mim, vamos vestir-te, a camisola é tão bonita e fica-te tão bem. Vestimos a camisola e depois vamos à rua buscar pão quentinho, hã? Ah, jeitosa. Temos de cortar estas unhas que ainda arranhas as costas de alguém.
O meu namorado vem amanhã, Tia. Sabes quem é o meu namorado? Está bem, não faz mal.

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Às vezes acho que nunca me vais compreender e é nesses momentos que oiço as músicas erradas de propósito. Não te vou repetir os assuntos de sempre, já te estendi as mãos cheias dos meus afectos podres e como diz o outro, “que fazer?”. Amanhã vou ao supermercado comprar açúcar mascavado para a tarte de maçã. A massa fica meio caramelizada. Já não consigo dizer caramelizada sem pensar em ti.

Desculpa não estar tão bem como estava quando me conheceste, a cabeça empolada de esperança, os gestos lentos e todas as palavras bem enroladas na língua para que te soassem melhor, a dicção a convencer-te ainda mais um bocadinho de que eu era perfeita para ti. A tua mãe telefonou-me a semana passada a pedir a receita da tarte. Acho deprimente duas mulheres tão empenhadas em fazer-te feliz para agora isto. Se não quiseres voltar é contigo, mas manda-me ao menos a goiabada pelo correio.

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Gabriela, amor, hoje é dia, Deus é pai e logo por sorte temos uma tarte de maçã morna. Tia, uma vez, devia ter dez ou onze anos, roubei-te dois contos que tinhas na carteira. Desculpa-me. Lembrei-me disto ontem à noite, já estavas a dormir.

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Ainda paraliso a achar que a realidade habitual retoma dentro de segundos. Fico quieta, sustenho a respiração, olho desolada para as peças espalhadas no chão. Que o caos esteja connosco graças ao inferno que se tornou a minha vida. Logo agora que estava tudo a correr tão bem. Há tantos anos que um corte de cabelo não me assentava assim. Acertei também com o tom da base. Tenho a minha situação fiscal regularizada. Passei a vir-me muito mais vezes. Deixei de roer as unhas. O meu francês finalmente bom. Uma folha de cálculo Excel artilhada de fórmulas mágicas.
Cheguei a ter dias tão bons que só precisava de botões e tudo acontecia. O botão do alarme de manhã, os botões do telemóvel, os botões da camisa fechados, os botões das calças abertos, os botões do multibanco, os botões do computador, o botão da tua campainha.

E agora tudo me custa, até as costelas me doem. Não consigo acreditar que me deixaste. E quando me convenço que já não gostas de mim, daí o safanão nas ventas, volto à casa de partida, costelas doridas só de inspirar. Eu que sempre fui tão boazinha para ti. Porque é que deixaste de gostar de mim? O que é que eu disse? Estávamos a jantar e de repente deste com as minhas olheiras? Eu sei que falei vezes de mais das histórias da minha tia.

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Tio Hélder, escrevo-lhe estas linhas basicamente para o mandar foder mais à merda dos seus oitocentos euros mensais. Até mudei o NIB.