terça-feira, janeiro 12

juízo e cabeça fresca



também o café tem de ser quente como o banho a escaldar e ainda por cima não sou lá muito dada à serenidade, nem à calma, nem ao equilíbrio. Coisas aprumadas e a pender para o saudável, só uma vez de dois em dois meses, traduzidas num cobertor e num sofá para arrumar uma tarde de domingo. Gosto de paz mas em pequenas doses, é difícil de explicar, tem de estar tudo a fervilhar numa medida especifica, que não me perturbe o sono pelo menos quatro ou cinco dias da semana (eu trabalho e mudo os lençóis da minha cama, não me posso dar a grandes luxos) mas ai que me falte um desconforto como uma luz de presença, uma azia em lume brando. Uma angustiazinha de trazer por casa nunca fez mal a ninguém, como aquele velho par de pantufas ao qual se regressa sem grande motivo. Enxotem-me os dados adquiridos, as rotinas a desenharem-se mesmo à frente do nariz, o telemóvel a piscar em chegando aquela altura do dia, o respeito pelas horas de sono, o cumprimento das refeições certinhas, o medo da chuva e de outras coisas maçadoras cansam-me a beleza. Prefiro comprar insónias por atacado do que andar a papas e sonos levezinhos quando calha. Não me venham com os caralhos do nude e dos pastéis – são lindinhos por um bocado, mas depois enjoa tanta doçura. Preto, vermelho, branco, azul, amarelo, laranja, lilás se faz favor. Se puder ser. Não me importam de onde provêm as sedas mas quanto às peles não sei esquecer que são esfoladas de um animal a guinchar aflito e eu levo a sério o sofrimento.

tenho de ir pintar as unhas.

alguns efeitos secundários da ciprofloxacina (ando a mandar um grama por dia)

ora, ora:

tonturas, cefaleia, cansaço, agitação, tremor. Muito raramente: insónia, paralgesia periférica, sudorese, desequilíbrio, convulsões, aumento da pressão intracraniana, ansiedade, pesadelos, confusão mental, depressões, alucinações. Em casos individuais: reações psicóticas (evoluindo até para um comportamento de auto-exposição a riscos).

O meu organismo especial optou pela nata da nata, maneiras que às cinco da manhã de hoje ainda não tinha pregado olho e como a essa hora não tinha mais nada de especial para fazer, achei que não era tarde nem era cedo para começar a foder a cabeça do filho da mãe que anda lá por casa e comecei a espingardar à séria, assim a roçar todos os limites do inadmissível, tão ofensiva e caótica que Deus, a existir, nunca me perdoaria e ainda me pregaria um bofetão

a reacção do ogre foi fazer-me um leite quente com chocolate e dizer que sim a tudo numa clara tentativa de me aniquilar com sentimento de culpa mas não foi capaz e eu continuei o raciocínio (qualquer coisa como “nada faz sentido/ a minha vida está horrível/ o mundo é um lugar mau/ só me apetece cometer suicídio mas isto é capaz de não ser nada”) até me fartar.
eu já sou a louca que sou e agora com isto valha-me deus

e agora que escrevi este texto no meu local de trabalho e me apeteceu ouvir música e os únicos auscultadores que haviam por aqui à mão eram aqueles com microfone tipo call-center, mas como não queria o microfone a incomodar-me, levantei-o ficando com uma espécie de antena, passa o meu patrão e achou-me nestes preparos (plus olhos esbugalhados, plus ar de zombie) e de certeza que me achou, mais uma vez, muito confusa e bizarra mas pronto, temos de ser uns para os outros e há angústias bem piores.

sábado, janeiro 9

tinha isto em draft há long long time ago

Portanto, não sei o que queres que te faça para o jantar
é carne, peixe, soja, vodka, whisky, cachaça? – tenho de tudo em casa, tirando a soja e carne só se forem os nuggets congelados do mini-preço que tenho comprado para as refeições rápidas que o trabalho me obriga a fazer e eu também não me importo, que até nem são maus quando bem feitos no forno, à temperatura certa. E isso ainda é o mais importante – a temperatura. Repara que um banho nunca será um banho sem os 30 graus que preciso para me sentir em condições de sair de casa.
De vez em quando lá te aceno um olá, a ver se me emprestas (olha que não disse prestas) um bocadinho de atenção, mas posso muito bem não estar para isto. Estamos em plena rampa de lançamento e eu estou a ser generosa. Daqui a nada revolta-se-me aqui qualquer coisa (e tu não fazes ideia do que estou a falar) mas acredita que ainda viro o teu mundo de pernas para o ar, mesmo sem querer. E se calhar até só estou a gostar deste prolongamento fantasioso porque o que eu adoro mesmo muito a sério é a iminência do desastre, aquele instante sobrelotado de adrenalina antes de revolver o cenário de uma assentada só, é uma tesão aqueles segundos antes de esmurrar uma respeitosa pirâmide de cartas. A ver se nos entendemos – eu até agora só me tenho dado mal com estes farejares que sucedem por aí entre homens e mulheres. Toma lá cuidadinho pela tua rica saúde e agora não oiças isto que não é preciso.


sexta-feira, janeiro 8

eu sempre disse que era dada ao tutti-frutti

eh.

“Eu não sou contra...mas também não sou a favor!”

Acho giro. Ainda estou à espera das imagens de entrevistas de rua:

“Acha que os casais homossexuais devíam poder casar-se?”

“Ahmm...devíam-se casar maisómenos...”

Isto do mais ou menos e do assim-assim lembra-me sempre a competência de uma funcionária pública do Centro de Emprego, que ao preencher a ficha da minha mãe, lhe perguntou:

“Então D. Maria José, diga lá, quantos filhos tem...assim...mais ou menos quantos?”

Tenho muita pena de não ter estado ao seu lado nesse momento, para responder prontamente: nós somos uma média de 6,3 filhos.

quarta-feira, janeiro 6

quatro horas nas urgências

então,
obrigada a quem me estendeu a mão para me amparar na luta contra a doença (especialmente ao Dr. Nuno) e parabéns a quem apostou na cólica renal.
em princípio isto não passa de uma infecção urinária avançadinha que aproveitou a festa para me comer o rim (hum).
mas passa rápido com antibiótico.
agora tenho de ir ali beber água, já volto.

terça-feira, janeiro 5

pus um bambi porque nunca tinha ilustrado nada com um bambi e acho isso pouco correcto da minha parte


Venho dar conta de uma situação extremamente desagradavel, que, a continuar assim, é má onda. Não vou estar com meias palavras nem rodeios – sou pessoa para finar em breve. Morrer, exactamente. Ora recuemos até ao dia 31 do passado ano. Começo a sentir graves dores no ovário direito que me impossibilitaram de várias actividades, nomeadamente caminhar pela rua como uma diva, obrigando-me a fazer o meu trajecto com um certo ar de Corcunda de Notre Dame e com o sobrolho franzido. Como sabem, odeio drogas (excepto as recreativas que me oferecem uma visão geral do mundo muito mais aprazível). Mas como estava em sofrimento lá cedi à toma de be-nu-rons.

Chegada a passagem do ano e derivado à toma de susbtâncias anestesiantes e divertidas a coisa foi-se resolvendo. Dia 1 lá permancia o ovário estragadissímo, a pulsar histérico, todo mauzão. Feita uma breve pesquisa no google percebi que tinha um cancro horrível mas a boa noticia é que venci-o com paracetamol.

Chega-se à noite e esta que vos escreve começa a notar que tem um rim direito em mau estado. Dores de meia-noite, não podía estar sem parecer uma grávida agarrada às costas e a caminhar com a pança (pancinha aliás, um bocadinho saliente mas fofinha) mandada para a frente e vão mais dois ou três analgésicos para fazer de conta que não se passa nada. Acordo no dia seguinte de madrugada a choramingar como uma mariquinhas, a achar que devia ir às urgências, que não era normal. Mas eu sou uma tipa responsável. Deixei-me estar muito quietinha e acabei com as caixas de brufene e paracetemol.

Ontem à tarde começa-se-me a subir uns calores fígado acima. Não é bom sentir o fígado todo inchado e palpitante. Assim uma dor aguda tão forte e chata que não posso tossir, espirrar, fazer força, aspirar o cotão da sala. Esta noite estava convencida que ia morrer e enquanto não encontrava uma posição pacifica, nem me podia virar sem dar um ui, ia reflectindo sobre o meu percurso de vida e quem me iria esperar quando chegasse ao purgatório.

Tirando os problemas mentais sempre tive uma boa saúde. Mas está visto que chegou a hora da ter uma valente falência múltipla dos órgãos vitais. (ai)

Adeus. (deixa-me cá revirar os olhos e por as costas da mão na testa)

true

segunda-feira, janeiro 4

oh que rica merdinha

Olá meu povo justo e bom,

tudo nos conformes?

Eu não.

Passei quatro dias seguidos em acéfalo-mode, entre a cama e o sofá, banhos quentes e leite com chocolate, trash tv, jornais e revistas, massagens nos pés, chá de limão, cafés, cigarros, pijama novo, pouco contacto com a vizinhança, telemóvel silêncioso e música tão boa, muito colo, cobertores, torradas às cinco da manhã, ainda ter as marcas da almofada às três da tarde e agora querem que eu trabalhe assim de uma hora para a outra??

Esta gente às vezes não tem noção nenhuma. Tenham juízo.

sábado, janeiro 2

2009

Faz hoje um ano estava eu a trabalhar com gente muito horrorosa, metida num aparato todo muito chique, numa comitiva de lambe-cus sempre de cafezinho na mão, garrafinha de água em riste, rebuçadinho de mentol a perfumar o pires, camisas finas prontíssimas a esfregar o ecrã gordurento do Blackberry e eu com um nó apertado na cabeça, a mioleira a pingar dúvidas e a sujar-me a cara com rugas, a pensar se aquilo era coisa para durar muito tempo ou que raio de merda deveria fazer da minha vida. E 2009 foi-se fazendo num prolongamento casa-trabalho-casa-trabalho, sempre às turras com as minhas expectativas (i’m a beliver), a ver se sempre me iria safar daquilo e ainda por cima fartinha do Inverno.

Inverno – frio; frio – gelo; gelo – caipirinhas; caipirinhas – Brasil e eis que chego a meio do ano angustiada com um novo convite de trabalho e histérica para me ir enfiar nas águas quentes do Ceará e receber abraços de gente fina. Três semanas de dunas vertiginosas e um bronze depois e eis-me cheia de coragem para me despedir de um inferno bem pago. O Verão foram festas e cervejas que nunca mais acabavam, comemorações a pender para o memorável, manhãs muito luminosas que me transformaram em toupeira mais que três ou cinco vezes. E depois o Outono e trabalho, trabalho, trabalho, trabalho

(ups um gajo giro)

trabalho, trabalho, trabalho, que bom, já não me lembrava como era isto, tudo muito louco mas tudo muito

(foda-se um gajo giro)

ora se não me falha a memória era bem capaz de ser o tal de há não sei quantos anos (vá, dois) que até mereceu a minha melhor atenção e um post e tudo lá atrás mas nem queiram ver que eu escrevia tão mal, que vergonha.

E por falar em escrever, este pedaço de blogue a registar tantas visitas e outras cenas emocionantes, e-mails e elogios exagerados e gente boa onda e links e tudo e eu toda vaidosa e impossível - já agora obrigada (bom mas bom era dar uma festa mas ainda não enriqueci).

E a despedida do ano foi decidida lá pelas 21h30 do dia 31, não fiz planos nenhuns, dediquei-me com afinco ao go with the flow, até ao fim e não é que foi muito nice, eu e uma espécie de Elvis e o Maxime estava giro, gajas e chantilly, obrigada.

Até agora 2010 está a ser espectacular e até já risquei mais uma coisa da lista lá do fundo. Agora tenho de ir vestir umas meias mais quentes, está frio, não está?